
Sorrio! O feriado do G20 e as nossas milhas nos levaram ao sul da Bahia. Estava com saudade do friozinho na barriga de ir para o aeroporto sem poder esquecer o dinheiro, os documentos e as passagens do avião. Mas, em tese, hoje, tudo é mais simples. Basta não deixar para trás o telefone celular, onde fica arquivado o cartão de embarque – um hieróglifo que chamam de QR Code. Enfim, nada que os antigos egípcios não dominassem…
Voamos, chegamos e o hotel estava mais cheio do que o desejável. Segundo me informou o recepcionista, a lotação se devia aos convidados de um casamento à beira mar, no dia seguinte. Mas rendeu-me boas observações. Lembrei-me de Agatha Christie, idealizando o cenário perfeito para um assassinato.
No café da manhã, generoso e repleto de baianidades, muitos estavam ansiosos para a cerimônia que ocorreria à tarde. Um grupo de mulheres, em voz alta demais, discutia tudo que estava programado para a festa e o que vestiriam. Tenho todos os pormenores, mas poupo o querido leitor.
Em torno das quatro horas, do deck da piscina, ouvi o burburinho da saída para o casamento e fui conferir discretamente. A moda gritava! Algumas senhoras vestiam-se como lagostas. Outras, usavam chapéus com penas de araras extintas, que pareciam ter voado sem escalas da Casa de Windsor para a Praia da Pitinga.
Seja como for, que se divirtam!, pensei. De minha parte, tinha um horizonte de beleza na direção oposta. O céu estava limpo, o mar batia, a maré estava alta. Li mais um capítulo do livro do Ariel Palácios sobre o lado B da América Latina, terminei a segunda caipirinha e decidi com minha companheira fazer uma caminhada na praia. Quem sabe ver o pôr do sol… Lá fomos, um pé na areia, outro no mar quente do Nordeste, curtindo a simplicidade e a delícia do programa sem protocolo ou planejamento.
Eis que, de repente, avistamos toldos brancos ornados com arranjos de flores. Um pouco mais perto, um gramado, poltronas, mesas, muita gente. “É o tal casamento!” Que situação! Nós íamos passar atrás do altar. O celebrante de costas para o mar, a noiva de branco, o noivo, fotógrafos e câmeras filmando tudo. Não dava tempo nem para eu vestir a camisa. Voltar também não era possível.
A faixa de areia atrás do altar era pequena. O jeito foi acelerar o passo e encolher a barriga ao máximo para não fazer feio nas fotos no momento exato da troca de alianças.
No dia seguinte, na hora do glorioso café da manhã, ao contrário do que teria acontecido com Agatha Christie por perto, ninguém tinha morrido. Mas soube que a mãe da noiva ficara furiosa com um “selvagem” fotografado e filmado atrás do altar.
Felizmente, ela não me reconheceu. Do contrário, teria me oferecido um bem casado recheado de cianureto de potássio e o célebre detetive belga seria chamado às pressas à Bahia.
A propósito, o detalhe do veneno me veio à mente antes de eu saber da tentativa de um magnicídio inédito no Brasil. Aliás, enredo que cairia como uma luva no livro do Ariel. Ele conta histórias inacreditáveis sobre centenas de golpes de Estado na América Latina e seus ditadores mais esdrúxulos.
Como participar de uma casamento sem ser convidado…e ainda sair em Caras, com certeza…a glória…
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