A pressa de sentar era como a brincadeira da dança das cadeiras, mas todos se sentaram no trem do metrô de Botafogo em direção à distante Estação Pavuna. Até eu.

O ar condicionado estava fortíssimo. Em geral, é assim: no ponto do cozimento dos nossos miolos ou na temperatura da Sibéria. Deixei o livro no colo e observei os pés diante de mim, perfilados no banco comprido do vagão. Uma espécie de centopeia calçada das mais variadas formas e cores.

Alguns pés eram calejados e mostravam-se nitidamente cansados. Pela hora, voltando para casa depois de uma jornada extenuante. Outros, espevitados, estavam de salto alto. Podia apostar que saltariam na Estação Cinelândia.

Mais ao fundo, vi uma sandália vazia – o pé esquerdo, carente, apoiava-se no direito. Enfim, um festival de pés e de pares de sapatos. Tênis rotos, Havaianas, mocassins, botas – nada ao estilo de Imelda Marcos, lógico. Imagine se a lendária esposa do ditador das Filipinas pisaria num metrô…

E Imelda me transportou ao episódio da primeira dama do nosso Estado, ostentando com suas amigas os sapatos das solas vermelhas. Como cheiravam mal! Não os Louboutins (lê-se lubutã), os tais sapatos de luxo, mas suas donas, a festejar o que não haviam comprado com o seu trabalho. Seus maridos compunham a gangue que pilhou os cofres públicos do Rio de Janeiro por anos.

A viagem passou rápido. Voltei aos meus pés para me levantar. Ao longo da vida, eles calçaram muitos tipos de sapato: congas sem cadarço, os populares Vulcabras, alpercatas, sandálias de couro e de sola de pneu…

Foram apenas duas estações, mas meu pensamento foi longe. Desci no Largo do Machado, atento a onde pisava e para onde ia sem tropeçar.