O João Carlos de Oliveira colhido pela minha memória hoje não é um João qualquer, é o João do Pulo, o do Salto Triplo. O Brasil não era uma potência olímpica, mas éramos recordistas do salto triplo – modalidade prestigiada por todas as escolas na década de 1970. 

No meu ginásio, com um giz, o professor de Educação Física riscava duas linhas espaçadas no cimento, antes da caixa de areia. Tínhamos que dar um primeiro impulso com uma perna, depois, mais um com a outra, e nos projetávamos na areia. Um misto de jogo de amarelinha com salto em distância. O meu centro de gravidade não falhava e eu sempre caía de bunda, saindo do treino todo ralado.

Naquela época, a aula de Educação Física podia ser um prazer, se o tempo fosse todo dedicado aos esportes. Não me lembro de ninguém que gostasse de ficar uma hora fazendo polichinelos, flexões e os odiosos abdominais. Mas saltando para o século XXI, quando vou à academia, fico pasmo com o contrário. As pessoas se comprazem em aparelhos de tortura para moldar três bolotas em cada braço e ganhar peitorais de Hulk.

Ora, onde se encaixa a tese da mente sã em corpo são? Enxergo-me cada vez mais insano e meus ícones desmoronaram. No cinema, o “physique du role” dos galãs não exigia tanto sacrifício. Veja o 007 com seu “smoking slim”. Se o sujeito tinha excesso de músculos, era da Spectre ou da KGB. A inteligência sempre vencia a massa bruta e Arnold Schwarzenegger  demorou muito para fazer papel de mocinho.

Portanto, a estética dos corpos, os benefícios do ovo e dos exercícios físicos variam no tempo – razão suficiente para eu me manter prudente e conservador. A virtude jamais exagera na musculação! Apesar de que eu receberia de bom grado, do bom Deus, uma barriguinha tanquinho. Algumas camisas minhas têm encolhido, assim como é reduzida a cultura de alguns colegas sarados da academia. Um deles me disse que não fazia ideia de quem era João do Pulo! Qual!