
Meu irmão Bob se foi… Precisava. Quando meus avós morreram, senti muito. Depois, foram-se meus pais e um vazio maior se instalou. Mas quando alguém da nossa geração desaparece é inevitável revisitar a vida toda, transformada em um quebra cabeças já montado que vai perdendo suas peças.
Bob era oito anos mais velho do que eu. Sua década compunha o meio da senha que nosso pai escolheu para seus acessos aos bancos: 53-54-55, o nascimento dos três primeiros filhos e o segundo tricampeonato do Flamengo.
Éramos muito diferentes, a não ser pela identificação com o Pica Pau. Ele gostava de implicar comigo até me levar às reações mais furiosas. Quando jogávamos War, um jogo de tabuleiro que, como o nome diz, simulava guerras entre exércitos de plástico, Bob não lia seu objetivo secreto escrito nas cartas. Era sempre me destruir. Deixava a carta de lado e me olhava ao melhor estilo Woody Woodpecker.
O que fazer, a não ser me conter para não jogar o tabuleiro para o alto e sair correndo? Quando eu era menor, jogava suas roupas e dos meus outros irmãos na privada, mas nem assim conquistei seu respeito.
No fundo, era um gozador muito carinhoso, tanto que me escolheu como padrinho do seu primeiro filho, o primeiro neto dos meus pais, nosso primeiro sobrinho e motivo de muita festa na família. Eu tinha 15 anos quando o João nasceu e já não jogávamos War.
Também foi o Bob quem me ensinou a dirigir pelas ladeiras de paralelepípedos de Teresópolis. O máximo! Com muito orgulho eu dirigia seu Opala marrom, sempre sujo e bagunçado. Bob nunca deu a mínima para organização e método – era um anarquista raiz. Eu também podia bater e arranhar o seu carro porque, para ele, isso não teria a menor importância.
Pois o sacana nos deixou. Acumulou muitos amigos em 70 anos vividos do jeito dele, com muita gargalhada, muita ironia, muito talento para pintar, mas também com álcool e muito cigarro. Certamente, como todos nós, se arrependeu de determinadas escolhas, mas daria um jeito de driblar as consequências com bom humor, tal qual faria nosso guru em comum, o Pica Pau.
Vá com Deus, Bob! Você não acredita, mas Deus existe e vai te receber de braços abertos. No Céu, você reencontrará muita gente boa e terá grandes inspirações. Mas, por favor, não volte para puxar o meu pé à noite.
Mauro, por certo, é difícil se despedir de quem a gente ama. E mais: ainda que a gente tente ter bom humor, no fundo, sempre haverá alguém que perceberá o nosso sorriso triste… Paciência. É da vida!
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O registro do lamento é uma homenagem, sensível nas letras do irmão que sabe notas as nuances das boas sensações e o apertar do coração nos vazios deixados pela vida…solidariedade
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