Sábado, fomos ao casamento do filho de uma grande amiga. A cerimônia foi bonita e depois veio uma festa muito animada. Mas com o som nas alturas! Normalmente, pelo que soube, é assim. O anormal sou eu e lembrei-me do grande alívio que tinha ao sair das discotecas e boates da minha juventude. A sensação de prazer ao transpor o umbral da música ensurdecedora para mergulhar na madrugada silenciosa é inenarrável. The sound of silence!

Mas lá estávamos nós três na festa de casamento. Minha filha, Cecília, estava no clima, lógico! Ela tem 22 anos. O que faria para escapar? Tentei o suborno. “Filha, 200 reais para irmos embora”. Os decibéis estavam nos píncaros. Nem no banheiro havia paz. Mas Cecília se mostrou incorruptível. E olha que eu abriria mão de comer o bolo!

“250 e não se fala mais nisso!” Ela não quis! O pagode rolava solto e alto! E havia música de bate estaca também. Meus tímpanos resistiriam até quando? Sem falar que tínhamos um longo caminho de volta até nossa casa.

E as blitzes da Lei Seca? Eu tinha tomado um par de copos. Mais um motivo para não demorar a sair… As conversas, com quem quer que fosse, eram impossíveis. Como não disponibilizar intérpretes de Libras? O cerimonial falhara nesse aspecto. “Vamos para casa, Cecília. 400 reais é minha oferta final!” Ela negou!

Com dois miolos de pão, tentei improvisar protetores auriculares. Não deu certo e tive que me conformar. O jeito era beber um pouco mais e observar muito. Uma das convidadas vestia um vestido longo estampado de abacaxis. Acho que ela não reparou que o tecido era idêntico ao das cortinas do salão. Dependendo do ângulo em que era vista, seu vestido sumia dentro da cortina. A visão e o mimetismo me fizeram esquecer o barulho por algum tempo. Foi um consolo. A crônica do dia seguinte já estava escrita na minha cabeça aturdida; e eu comeria o bolo.