Nas famílias com muitos irmãos se disputa tudo: a preferência dos pais, o maior pedaço de pudim, quem toma banho primeiro depois da praia, o maior bife, a televisão, o sofá e, na minha família, a disputa de quem tem o melhor padrinho e a melhor madrinha. “Seu padrinho é tio de todos nós, não tem graça”. “A sua madrinha não compra presentes para você”. “Seu padrinho nunca veio aqui”. “E o seu é muito velho! Bem feito!” Mais ou menos assim. 

Mas, justiça seja feita, o padrinho da minha irmã, apesar de muito velho, e de o termos visto poucas vezes, protagonizou histórias memoráveis. Ele era tão velho, que foi o promotor do caso do assassinato de João Suassuna, pai do grande Ariano, na década de 1930. O crime seria uma vingança da família do também assassinado João Pessoa, que virou o nome da capital da Paraíba, sobrinho do Epitácio Pessoa – aquela avenida da Zona Sul do Rio de Janeiro. Meu pai dizia que tio Rufino era dos maiores advogados de acusação de sua época, como Evaristo de Moraes era pela defesa.

Como decano da sua geração, era esperado que nosso tio avô fosse o primeiro a reunir amigos e parentes para o seu sepultamento. Mas passou a perna em muitos e não perdia nenhum velório. Mas, o pior, nos contava meu pai, é que ele podia perder o amigo até depois de morto, mas não perdia a piada. Em qualquer enterro, tio Rufino era uma sensação. Em torno dele formavam-se grupos de onde ecoavam, para constrangimento de muitos, as maiores gargalhadas. Seu repertório de humor negro só não era maior que a sua idade.

Durante um desses encontros fúnebres, no Cemitério de São João Batista, ele se superou. Era cotado para assumir o cargo de desembargador e dependia da indicação de um colega, que se aproximou e disse: “De Loy, passe lá no gabinete. Temos muitas ideias a trocar.” E a resposta veio na lata: “Nem morto! Nessa troca de ideias, eu só teria a perder!” A gargalhada foi geral e ele morreu sem a merecida promoção.

Portanto, hoje sabemos que minha irmã não tinha por que sofrer. Seu padrinho era velho, sim, mas era um sujeito legal, que só perdia, obviamente, para o meu, o médico da família, Dr. Viana, que me levava para passear no Alto da Boa Vista no seu De Soto preto, mais tarde substituído por um Itamaraty azul, modelo de Aero Wyllys, novinho em folha.