Não me lembro exatamente por que acompanhava minha mãe em muitas de suas compras na Praça Saenz Peña. Não sei se eu era pequeno para ficar sozinho em casa, se ganhava alguma coisa em troca ou se simplesmente gostava de passear no seu fusca azul, daqueles com o guidon branco, bancos de plástico cinza claro e uma espécie de Santo Antônio acima do porta-luvas, onde eu me segurava com as duas mãos e ficava com o rosto colado no para-brisa. 


Minha mãe costumava estacionar numa rua pequena, ao lado da Sloper – uma loja de departamentos chique. Lembro-me dos seus elevadores com portas de vidro. Mas ela frequentava, sobretudo, duas lojas de tecidos, a Khalil M Gebara e a Parque dos Tecidos. Para mim, lojas de tecidos eram ainda piores do que lojas de roupas – nada prêt-à-porter. Mas lá íamos nós e eu supunha que minha mãe devia ser muito importante na Khalil. Era atendida pelo dono, o Sr. Rachid, cujo aperto de mão é inesquecível. Ele me olhava de cima da sua altura e estendia sua mão mole e fria, que apenas roçava na minha. Aquilo não era aperto!


Em seguida, os dois paravam num dos balcões, onde Sr. Rachid pegava uma das milhares de pranchas de tecido superpostas e, com um movimento das mãos, fazia cair ondas de pano. Certificava-se de que era exatamente o que Nininha queria, pegava um bastão de madeira para medir, a tesoura do bolso e zap! “A senhora não quer ver o crêpe georgette?” Nunca mais me esqueci desse nome que até hoje associo a uma sobremesa.


O próprio Sr. Rachid dava o preço e recebia o cheque de minha mãe. Só tínhamos que segui-lo até o caixa, numa espécie de ilha, ao lado de onde ficavam os desenhistas da loja. Estes, faziam desenhos lânguidos, compridos, de mulheres magras, de cabelos longos e ondulados vestidas com as suas criações. Da loja, na minha opinião, com metros de nada na sacola, voltávamos para o Fusca. Se tivesse sorte, passaríamos no Bobs para tomar suco de laranja com gominhos. Nininha gostava de sundae de morango.

PS Crêpe Suzette é a sobremesa.