Há dois anos, minha mãe se foi, amando a vida. Dizer que morreu não cabe. No ano seguinte, foi-se meu pai. Nada tinha a fazer por aqui sem ela. Fez bem. Noventa e cinco anos normalmente é demais. Para nós que ficamos, sei que o jogo continua e que é preciso olhar para frente. Mas volta e meia ainda olho para trás para ter certeza de que não estão ali.

Uma vez por semana, vou à casa onde moravam para ver e rever as fotografias deixadas para trás. É muita história! A história deles, da cidade, do país, das suas viagens… O apartamento, hoje, dos cinco filhos, está à venda e decidi eu mesmo o pintar. “Ele tem TOC”, dizem uns, mas afora a razão objetiva de tentar torná-lo mais atraente para a próxima família, as pinceladas nas paredes compõem um certo ritual.

E que Joaquim Ferreira dos Santos não me ouça! Sei que não ouvirá ou lerá, é óbvio, mas digo isso por conta da sua primorosa crônica de segunda-feira passada. Ele ironiza as pessoas que jamais encontrarão paz e inspiração sem ir ao Butão ou sem beijar a boca de um camaleão.

Seja como for, enquanto eu não terminar as duas demãos transcendentais de tinta na casa dos meus pais ou surgir um comprador, seguirei na minha odisseia pelas fotos amareladas dentro dos álbuns, encadernadas por “Foto Preuss, Edifício Odeon”, ou distribuídas por caixas de papelão.

Há também muitas cartas, postais e escritos inusitados para os tempos de Google. Por exemplo, a tradução, com a caligrafia do meu padrinho, do célebre discurso pronunciado na consagração do Cemitério de Gettysburg. No final da transcrição, estão as observações sobre a linguagem de Abraham Lincoln e o contexto de 1863, feitas pelo padrinho um século depois. Tempos muito diferentes… Visitá-los é um privilégio.