Não se trata de Paris, que, sem dúvida, vale uma missa*. Falo do conteúdo das missas a que assistia levado por meus avós na Igreja de NS da Conceição, no Alto da Tijuca. Eu tinha entre oito e 12 anos de idade e pouco compreendia do ritual, mesmo depois da primeira comunhão, feita nesta mesma igreja, guiado pela Dona Nádia, professora de Catecismo. Confesso que tinha medo dela, coitada, com suas pernas cheias de varizes. Mas certamente era boa pessoa. Não ganhava nada para ensinar a religião a um grupo de fedelhos da Escola Barão de Itacurussá.

Na última aula, Dona Nádia nos levou um pacote de biscoitos waffle para treinarmos receber a hóstia. Persignados, devíamos abrir a boca, botar a língua para fora e, depois que sentíssemos a casquina do biscoito (ela tirava o recheio), fechávamos a boca e dizíamos amém. Ela insistia que não podíamos mastigar a hóstia nem bater boca.

Não seria difícil no grande dia, diante do padre, mas, na antevéspera, teríamos que passar por outra prova: a de nos confessar. Me deu um branco. Aos 10 anos, ainda não estava familiarizado com os pecados. O padre sorriu e pediu que eu lhe contasse o meu pecado. O jeito foi improvisar. Disse que tinha sido grosseiro com a Maria Babosa, empregada da minha tia que tomava conta da gente quando meus pais saíam. O padre me absolveu e dois dias depois provei uma hóstia de verdade.

Mas nas missas seguintes, em vão, eu tentava descobrir a lógica de levantarmos e sentarmos em determinados momentos. Também não entendia o que era dito, mas mexia os lábios para fingir que acompanhava as falas da plateia. “Ele está no meio de nós”, tudo bem, eu entendia. Era Deus. Mas, “santo, santo, santo, hosana nas alturas”, só associava à minha prima Rosana. Assim como era um grande mistério o cordeiro de Deus. Um carneirinho a tirar o pecado do mundo?! Meu avô me dava dinheiro para eu colocar na cestinha que circulava e eu morria de vergonha de cumprimentar as pessoas que estavam à nossa volta. Fim da missa.

Hoje, reverencio todo tipo de religião que faça o bem das pessoas, mas continuo sem compreender parte dos seus rituais. Sinto-me bem dentro de igrejas vazias. Prefiro o canto, o órgão e a música aos roteiros pré-definidos e à maioria dos sermões. Por outro lado, quando me vejo dentro das grandes catedrais – São Pedro, Notre-Dame de Paris, a de Sevilha, a de Salamanca, para ficar em poucos exemplos, fico indignado. Imagino o processo cruel da sua construção. Na melhor hipótese, identifico-as a um museu, onde, ocasionalmente, determinadas obras de arte são capazes de emocionar profundamente.

A Pietà de Michelangelo é o exemplo mais manjado. Melhor seria que estivesse dentro de uma gruta, mas, mesmo em meio a tanta opulência, no Vaticano, faz muita gente chorar. A mãe de Jesus tem o filho morto em seus braços. Triste? Desolada? Conformada? Pacificada? Fraca? Forte? É o mistério… e, ali, ele está no meio de nós.

* “Paris vaut bien une messe”. Frase atribuída a Henri IV, ao se converter pela segunda vez ao catolicismo.