
De que serve negarmos nossas origens? Se você é neto de um cientista brilhante meio maluquinho, não significa que você será igual. É sempre possível ser pior. Se o seu pai era um psiquiatra famoso, mas sofria de distúrbios de ansiedade, não significa que o seu destino esteja selado. Digo isso, tendo em mente dois filmes que, se o prezado leitor desconhece, há tempo para assistir.
Posso ter, sim, algum distúrbio de ansiedade que me cause sofrimento. Mas como não ser ligeiramente ansioso perto da quarta revolução industrial? Como não sentir um certo desconforto, sabendo que a crônica em curso não admite excesso de parágrafos, linhas e toques? Tentarei, então, ir direto ao assunto.
Dezenove anos não bastaram para minha tia-avó Josefa concluir sua mudança da Rua Sorocaba para a Avenida Copacabana. No quarto onde ela concentrou o que trouxera de Botafogo, muitas caixas não foram abertas antes que o seu próprio caixão fosse fechado na Capela 1 do Cemitério São Francisco Xavier, nos idos de 1988.
No entanto, apesar dessa vivência familiar, dizem que sou muito ansioso e tenho TOC porque, no dia seguinte das poucas mudanças que fiz, os quadros tinham sido pendurados, não havia caixas por abrir e os livros e discos estavam dispostos em estantes. Os discos, não mais, pelo menos, nesta que espero ser minha penúltima morada.
Quatro parágrafos já foram digitados e começo a suar. Outras ideias fervilham na cabeça e não sobrará espaço – o que associo ao primeiro filme que, se você não viu, corra para o Youtube, na falta do DVD precioso de um amigo: O Jovem Frankenstein, 1974, de Mel Brooks. Ah! Se o Igor (Aigor) tivesse entregue ao meu avô outro cérebro! Uma massa cinzenta livre de tantas limitações e angústias! O final teria sido diferente – não digo melhor. Confira!
O segundo filme, que também tudo tem a ver com mentes ansiosas, é uma paródia dos filmes do mestre Hitchcock, ambientado numa clínica psiquiátrica: Alta Ansiedade, de 1977, também de Mel Brooks. Seus neurônios matarão a saudade de sensações fortes, como uma fuga desesperada de pássaros ferozes e enigmáticos, da vertigem e da cortina do box do chuveiro se desprendendo dos ganchos, com sangue escoando pelo ralo – sem falar das técnicas de posicionamento e aproximação das câmeras.
Portanto, se você é daqueles que procuram 1001 livros para ler ou 1001 filmes para assistir antes de morrer, comece por esses dois filmes que explicarão coisas que nem Freud soube esmiuçar.
Há, obviamente, outras obras-primas que nos fazem rir e sorrir: La Cage Aux Folles, 1978, com Tognazzi e Serrault; As Loucas Aventuras do Rabbi Jacob, 1973, com Louis de Funès; Amarcord de Fellini, também 1973, com sua maravilhosa lição de grego; e a Primeira Grande Guerra contada em Le Roi de Coeur, Philippe de Broca, 1966!
Você certamente enriquecerá muito essa lista do que há para conhecer e experimentar antes do último suspiro. Para tia Josefa, uma pena, 19 anos não foram suficientes para concluir a mudança com a qual sonhara. E ainda dizem que o maluco sou eu!
Também fiquei muito impressionada e, por que não dizer?, com uma pontinha de inveja pela rapidez com que vocês conseguem desfazer a imensa bagunça de uma mudança e achar logo um lugar para cada quadro. Invejável mesmo!
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rsrsrs Até tu? Vou aumentar a dose do ansiolítico, então. Bjs
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Rsrsrs. Não faça isso!
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