Como, segundo alguns, o acaso não existe, cruzar com um porco atravessando a rua deve ter um significado. Sinal para jogar no bicho e tirar o pé da lama no final do ano é evidente demais para ser verdade. Além do quê, já não se encontra um bicheiro na rua com tanta facilidade. Hoje em dia, esses contraventores chafurdam em restaurantes de luxo que não são para o bico da maioria e comem até bife de ouro… Não, esse porco surgiu por outra razão.

Ele ou ela, não sei, passou sobre os trilhos do bonde na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Tereza, com a placidez de uma vaca que pasta no campo. Obviamente, não buzinei. Reduzi a velocidade, abri a janela e até o cumprimentei. Mas o mal educado não se dignou a grunhir. Aliás, não são apenas os porcos que ignoram expressões de cortesia e civilidade.

O fato é que o porco não me sai da cabeça e ainda busco o propósito do nosso encontro. Como foi parar ali e não numa panela? Como mantém sua integridade de porco e não se transformou num torresmo derrotado e tostado?

Havia um porco no meu caminho. No meu caminho, havia um porco – diria o poeta – e eu o deixei para trás, supondo que surpreenderia outras pessoas – se é que alguém ainda se surpreende com alguma coisa depois que uma galinha ficou gripada na China e mudou o mundo.

Acho que a resposta é justamente que o acaso existe, sim. O acaso e o ocaso. Tudo é possível. Até o pior. O time de futebol da Arábia Saudita ganhou do da Argentina. O Japão venceu a Alemanha e o Marrocos botou a Espanha para correr. Os homens são craques em subverter os ciclos da Natureza. Que reage!

É totalmente factível ver um porco na rua, cruzar com uma vaca numa avenida ou com peruas num boulevard. E mais! Se ainda não nevou em Salvador no Carnaval, é uma questão de tempo, assim como o coiote comerá o papa-léguas. Bip-bip! Socorro!