Juro que procuro os lírios do campo, mas, no meio do caminho, há sempre um jornal a lembrar que vivemos um Inferno. Nesta sexta, a primeira página do Globo bem que poderia ter estampado as ofertas de aniversário do Supermercado Guanabara. Mas, do jeito que a inflação está alta, mostrar os preços pega mal. E lá está a foto do chefe do Poder Executivo com a mão no peito, ao lado do Presidente do Senado e do da Câmara, seguida da manchete: “Agora é para valer. Com Bolsonaro em tom de campanha, Congresso promulga a PEC Eleitoral.”

Essa proposta de emenda à Constituição recebeu dos críticos a alcunha de PEC Kamikaze, pois representaria um suicídio das contas públicas, um rombo extra de R$ 41 bilhões simplesmente para convencer os eleitores de que a partir de 2023 tudo vai dar certo. Quem tem fome, obviamente, tem pressa, já dizia o grande Betinho, mas a pressa em questão é dos que querem manter seus privilégios. Sem tempo para inaugurar obras e mostrar serviço, pretendem fazer um PIX na hora H para quem precisaria de muito mais, para caminhoneiros e para taxistas. Também vão aumentar o vale gás. Vale tudo!

Economistas, alguns poucos políticos e jornalistas se insurgiram contra a Emenda, mas lhes escapou a imprecisão do nome fantasia. Kamikase significa vento dos deuses e, durante a Segunda Grande Guerra, a expressão foi usada para designar os pilotos japoneses que se lançavam como bombas contra os inimigos. Mas havia um sentido nobre nessa atitude. Eles davam suas vidas para o Imperador, a serviço do seu povo – o que me parece completamente diferente da motivação do nosso Congresso. Ao contrário dos aviadores kamikazes, os congressistas daqui querem se manter muito vivos e para sempre. O sacrifício será de todos, menos deles, cujo alvo é a maldita reeleição.

Conclusão óbvia: tudo isso é culpa do Globo! Mas por que compro o jornal, me perguntaria você? Seria uma espécie de coprofagia, como quem vota em Bolsonaro e sua base? Esclareço. Coprofagia é a prática da ingestão de fezes. Vem do grego copros (fezes) e phagein (comer). Mas não é nada disso! Sou assinante do jornal da Família Marinho por uma questão de necessidades. No caso, do meu querido Cuscuz. O danadinho aprendeu cedo. Não a ler, óbvio, mas a só fazer xixi e coco no jornal. E antes que ele comece a latir, já, já passarei o primeiro caderno para ele acrescentar seus comentários sobre os próceres da República.