Ah, Ofélia!

Tenho saudade da Ofélia, que só abria a boca quando tinha certeza. Eram tempos em que o país e o mundo balançavam, mas não caíam, na ótica do genial Max Nunes, das atrizes Sonia Mamede e Claudia Rodrigues e do maridão Fernandinho, interpretado por Lucio Mauro. 

O quadro, um clássico da televisão brasileira, era uma delícia. A simpática Ofélia confundia palavras e conceitos e era motivo de chacota para os amigos do Fernandinho, que, no final, sempre reagia na defesa da companheira, que só abria a boca quando tinha certeza.

Ofélia não era erudita, ao contrário. Mas era doce, seus olhos brilhavam e inspirava amor. E não há qualidade maior em um ser humano do que inspirar amor, confiança e paz – três atributos muito difíceis hoje em dia. Ou raros desde sempre, mas que só agora me dou conta. Antes, não tinha certeza.

Achava que as pessoas não queriam a guerra, desejavam uma sociedade mais justa e fraterna. Hoje, não tenho certeza. Também imaginava que o ideal da maioria era viver num meio ambiente equilibrado e saudável. Não tenho mais essa certeza.

O primo pobre fica cada vez mais pobre. O rico, mais rico. Outra dupla genial da TV, vivida por Paulo Gracindo e Brandão Filho. Mas a maioria das pessoas não faz nada para mudar. Mulheres e homens como Ofélia, com os quais me identifico, pela certeza de que ignoro muito mais do que conheço, podem não ler, podem não acompanhar os noticiários, mas não se enganam diante da energia ruim de determinadas pessoas e grupos, falsos moralistas cheios de preconceitos e até de ódio.

Portanto, não é preciso ser um Pafúncio (ou será Confúcio, Ofélia?), uma Madre Teresa, um Chico Xavier, um Júlio Lancelotti ou qualquer outro ser brilhante, letrado ou iluminado para avaliar sem muita margem para dúvidas que tipo de gente está governando o mundo, o nosso país, o nosso Estado, a nossa Cidade. Os maiores indicadores estão na nossa cara e, disso, eu tenho certeza!