
Na véspera de São Pedro, um dos três senadores da República pelo Rio, que eu não sabia que era o “líder do Governo”, disse, impetuoso, que iria à Suprema Corte para barrar a CPI do MEC, que deseja esclarecer o ataque de uma raça peculiar de pastores aos cofres da Educação Nacional. Foi o célebre desconhecido Senador Portinho – que não precisou nem do voto da mãe para ostentar título tão importante, biônico que é. Sua força e cargo provêm do falecimento do titular de quem era o suplente.
Pois conheci Sua Excelência justamente numa CPI. Ele atuava como assessor do, à época, secretário de Administração do Rio, Índio da Costa, e eu trabalhava com a relatora dessa CPI, a então vereadora Andrea Gouvêa Vieira. A Comissão Parlamentar de Inquérito versava sobre a compra da merenda escolar. Índio precisava esclarecer por que pagava ao mesmo fornecedor e no mesmo contrato preços diferentes por alimentos iguais. Pelo frango, por exemplo, pagava-se para as escolas de Santa Cruz até 30% a mais do que se pagava para as de Campo Grande.
As CPIs são criadas quando existe um fato determinado a ser investigado e, pelo menos, um terço dos parlamentares assina o requerimento para a sua constituição. A prisão do ex-ministro da Educação de Bolsonaro, o Pastor Milton Ribeiro, é um fato bastante concreto e a quantidade de assinaturas necessária foi alcançada, apesar de nenhum dos três senadores pelo Rio terem assinado o pedido! Romário, Portinho e Flávio, o senador-filho do atual presidente, parecem provar a Maldição do Monroe. Que trinca!
O Palácio Monroe foi sede do Senado quando a capital do Brasil era o Rio de Janeiro. O prédio suntuoso ficava no final da Avenida Rio Branco e foi demolido sabe-se lá por quê. Na ocasião, dizia-se que era por conta da construção do metrô, como se fosse uma justificativa razoável. Mas, como o traçado do underground carioca não passava por ali, pergunto-me se a ideia não partiu de algum general para ampliar a vista do Clube Militar, do outro lado da avenida.
Essa tese me parece razoável. Nessa mesma época, tínhamos um vizinho que meu pai chamava de General Anofelino. Eu era pequeno, mas me lembro da sua fisionomia raivosa. Nunca sorria e o apelido provinha dos supostos conhecimentos científicos sobre as formigas anofelinas. Aliás, como muitos militares, ele se dizia expert em tudo. Mas a associação de Anofelino com o Monroe se deve à insistência dele para meu pai arrancar um lindo Bougainville que ficava no nosso terreno, mas que “sujava” de flores secas o quintal cimentado do general. Um dia, para nossa tristeza, o Bougainville morreu. Descobrimos que o Anofelino havia jogado veneno para matá-lo e, hoje, não duvido que ele tenha sido realmente o responsável pela demolição criminosa do Palácio Monroe.
Tudo à volta de nossa casa no Alto da Tijuca decaiu muito. Dói-me passar por ali. Não duvido que a degradação do local tenha sido maldição do Bougainville. A casa do Anofelino, bastante feiosa, ainda está de pé. Virou uma clínica veterinária – ao menos, está mais bem frequentada. O Monroe tombou faz tempo, mas sua maldição parece-me cada dia mais forte. O Rio já teve como senador o Bispo Crivella. Hoje, tem Romário, Portinho, Flavio Bolsonaro e as perspectivas não são promissoras. Pergunto-me se o melhor candidato para a vaga não seria Incitatus, o célebre cavalo do Imperador Calígula…