
Abro a janela e penso nas janelas de Paulo Mendes Campos, cujas paisagens renderam crônicas excepcionais. Também me ocorre a janela da Dona Josefa no primeiro andar do Edifício Teerã, na Avenida Copacabana, com uma almofada no peitoril para o conforto dos seus cotovelos. Segundo ela, essa janela fora conquistada quando se mudou de Botafogo e deixou para trás o marasmo da Rua Sorocaba para ver a vida passar sob os seus olhos. Há muitos anos…
Hoje, as janelas são bem diferentes. São tempos de Big Brother e das “windows” das telas de computadores e smartphones, que descortinam um mundo à nossa frente, mas um mundo virtual. Através delas, avisto um panorama infinito para buscar o assunto da crônica semanal. É como procurar uma agulha num agulheiro. Escrevo sobre as ameaças à Petrobras? Trato da apologia da tortura feita pelo filho-deputado do atual presidente? Da operação militar especial da Rússia na Ucrânia (não pode chamar de guerra!)? Ou escrevo sobre quem deverá governar aquele país que produz mais de 246 variedades de queijo?
A propósito, esse grande arco de opções é o que os franceses chamam de embaraço da escolha. São tantas opções que hesitamos para decidir. Pessoalmente, na hora da sobremesa, nunca sei se peço crème brulée, profiterolles, torta de maça, toucinho do céu ou pudim de laranja. Veríssimo disse que mataria por um pedaço de pudim de laranja. Eu seria seu cúmplice com muita honra. Ah! Lembrei-me dos suspiros puxa-puxa da Dona Josefa! Uma delícia! Com um gostinho de limão ao fundo…
Mas volto à janela de casa – que emperra de vez em quando – e vejo as crianças entrando na escola. Morro de pena e morro de inveja! Pena por tudo que terão que estudar, como álgebra e a tabela periódica, e inveja dos recreios e da juventude. Como será o futuro dessa gurizada? Quando tinha 10 anos, queria ter 18 para assistir a todos os filmes no cinema. Aos 18, queria ter a independência dos 30. Aos 30, deixei de projetar o futuro e, mais adiante, comecei a evocar o passado. Melhor fechar a janela! Depois os olhos… e voltar a sonhar. Isto aqui está ficando real demais…
Bravo au chroniqueur de vue imprenable!
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Muito merci, querida!
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