Gosto não se discute, pelo menos, com franqueza, e no caso da decoração das casas é preciso compreender que por trás de objetos feiosos pode haver uma história bonita. Lembro-me de uma escultura de cascas de ovos que minha mãe ganhou de uma pessoa muito querida nossa, o Sr. H. E falo disso com tranquilidade porque ele já está em outra dimensão e não deixou descendente. A peça, de uma originalidade sem par (por sorte!) era das coisas mais horrorosas que meus olhos tinham visto: um misto de estilos duvidosos, com predominância do Baldaracci.

Quando Nininha recebeu o presente, obviamente disse que era lindo e, orgulhoso, o Sr. H disse que sua mulher esculpira a ave – descobrimos que era uma ave – e minha mãe ficou realmente tocada com o gesto. Devia ter dado um baita trabalho pintar e colar todas aquelas cascas de ovo. O problema dali para frente seria não magoar o Sr. H, que frequentava muito a nossa casa, e não dava nem para deixar a peça cair “sem querer” porque a estrutura era realmente muito bem feita. 

Solução: a trapizonga ficava dentro do belo armário – um móvel da sala que todos achavam feio, mas que minha avó dizia ser um belo armário, cunhando definitivamente o nome daquele e de todos os outros armários colocados no seu lugar. Quando o Sr. H estava chegando, nós gritávamos: “Mãe! Tira o pato do belo armário!” e o objeto, triunfante, ganhava o centro da mesa de jantar. Durante muitos anos, às vésperas do Natal, Sr. H fazia questão de levar alguma peça feita pela esposa. Lembro-me de uma almofada redonda, vermelha e verde, feita com um tecido que o Google me esclarece ser tule… “Mãe! Tira o pato do belo armário e bota aquela almofada no sofá!” Não me lembro de presentes que nos tenham dado mais alegria.

Penso em outras pessoas que se tornaram ausentes, mas continuam presentes na estante ou na memória. No fundo, são clássicos que não saem da nossa moda. A camiseta com um laço lateral e um enorme abacaxi estampado, dada a meu irmão por uma antiga namorada, até hoje nos rende boas gargalhadas. A réplica da Vitória de Samotrácia na estante, que a portuguesa Rosa dizia ser uma passarinha sem cabeça, idem. O velho de bronze do meu avô, o pinguim da geladeira, a coleção dos globos de vidro que fazem nevar sobre a Torre Eiffel, sobre o Coliseu e sobre o Big Ben, os porta-retratos com fotos antigas, a caneca escrita “Lembrança de São Lourenço”… São presentes da vida inteira…