
Todos os dias de manhã, quando supostamente acordamos e saímos da cama, antes de escovar os dentes, é útil darmos um beliscão no braço. No nosso! Para conferir se estamos no mundo real, em 2022.
Esse é um cuidado para não nos preocuparmos sem necessidade. Se não estivermos no mundo real, com sorte, estaremos tendo bons sonhos. Sem sorte, será o velho e conhecido pesadelo. Escrevo isso porque às vezes fico na dúvida se estou acordado ou não, dadas as notícias da véspera.
Seleciono três. A primeira veio de Londres, onde a polícia prendeu integrantes da seita dos “nullos” – homens que se submetem à castração. São os “eunuch makers” ou fazedores de eunucos e nada tem a ver com o bel canto ou com algum tipo de fã clube do célebre cantor Farinelli, do século XVIII, castrado para se tornar um soprano ligeiro – prática que só foi proibida no início do século XX.
Na Londres do século XXI, trata-se de um bando de malucos que, sabe-se lá por que, cultua passar a faca no próprio pinto, peru ou pênis, como preferir. Notícia dolorosa e surreal, que faz lembrar a pintura de Dali, “Ovos estrelados no prato sem o prato”, que ilustra este texto.
A segunda notícia procedeu da Primeira Turma do STF, que aprovou a contratação de “médicos-empresa”. Os donos dos hospitais não precisarão mais se submeter àquela legislação trabalhista chata. Seus médicos deixarão de ser pessoas físicas para se tornarem pessoas jurídicas – a chamada pejotização, cuja tendência é se estender a outras profissões, selando o fim da pessoa física.
Seremos 210 milhões de empresas em ação. Pra frente Brasil! No lugar de casamentos, serão as fusões, e, se o capital aumentar, poderão vir os filhotes, que receberão debêntures no lugar de mesadas. E viverão felizes para sempre, desde que consigam a monetização das suas vidas. “Papai, quando eu crescer quero ser influencer. Ganha muito mais que médico!”
A última reportagem dava conta do fim das moedas correntes que conhecemos e até das criptomoedas, que sequer tivemos tempo de aprender o que são. Elas serão substituídas por moedas digitais estáveis. Não desista! Eu explico! Euros, dólares, libras esterlinas, florins, coroas dinamarquesas, ienes, reais e outras moedas perderão seu peso. Só pobres analógicos as terão.
A reportagem não disse isso, mas aposto que as commodities também serão virtuais. A soja virtual produzida no Vale do Silício alimentará o rebanho virtual do planeta e nós, cidadãos avatares, finalmente teremos um cardápio de zero caloria. Já estou antevendo minha barriga tanquinho virtual. Não existirá pobreza virtual e as riquezas estarão nas nuvens. Não é à toa que os magnatas têm viajado muito ao espaço em seus foguetes particulares. Já se beliscou hoje? É a economia, é o capitalismo, estúpido! Cai na irreal!
Muito bom, Mauro. E olha que já me belisquei.
CurtirCurtir