
Na hora do café, Madame me lançou o seguinte raciocínio: “Ninguém é insubstituível… Veja aquela jornalista, que parecia ser a âncora daquele jornal da TV… Morreu no auge da carreira, mas o jornal segue ancorado por outros… Quem se lembra dela?” Tudo passa, é verdade, e nossos ídolos são substituídos por outros. Pelé e Garrincha eram deuses, mas depois surgiu o Zico, o Neymar, que mantiveram acesa a paixão pelo futebol. É como se, ao contrário do que se diz, bons raios caíssem, sim, no mesmo lugar e produzissem efeitos equivalentes.
Mas me lembrei de Ayrton Senna. Depois dele, não surgiu nenhum outro piloto brasileiro que sustentasse uma torcida. A simpatia de Barrichello chegou atrasada, a família Fittipaldi não produziu outro grande piloto e Nelson Piquet, pior, envergonhou o país conduzindo o atual presidente da República no velho Rolls Royce da Presidência.
Senna, portanto, pode ostentar a condição dos insubstituíveis, daqueles cujas lacunas jamais foram preenchidas. Em maio de 1994, ele foi traído pela Curva do Tamburello, no circuito de Ímola. Morreu e foi trazido ao Brasil num voo da Varig saído de Paris, que viria para o Rio, mas foi desviado para São Paulo.
Meus pais estavam nesse voo. Contaram que jamais tinham experimentado algo semelhante, um velório no ar. Ao contrário das normas da aviação civil, o caixão de Senna não veio no bagageiro. Foi transportado numa esvaziada classe executiva, de onde era possível ser avistado pelos passageiros. Foram doze horas de absoluto silêncio e comoção.
O cortejo fúnebre na pista do aeroporto foi um arraso! Fala-se do enterro do Getúlio e recordo-me bem do de Tancredo. Em ambos os casos, o país parou, estarrecido, sem acreditar na má sorte. Mas outros presidentes pilotaram o Brasil de lá para cá. Um deles, que se julgava insubstituível, quebrou a cara quando renunciou, esperando ser mantido no cargo com plenos poderes. A regra geral é de que talentos se renovam. Mas não na Fórmula 1, no Brasil. Pelo menos, para mim, desde que a McLaren do Senna saiu pela tangente.
Concordo com Madame: ninguém é insubstituível. Além disso, só colhem os louros depois que morrem. Um grande VIVA, para você e Madame!!
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