Além de frequentar a universidade, os filhos dos porteiros do Brasil deveriam conhecer Paris. Digo mais: quando isso for plenamente possível, seremos um país mais respeitado e feliz. E quem conhece a real dimensão da Cidade Luz não associa esse meu desejo peculiar a nenhuma forma de pedantismo. Paris é extraordinária, está lá, não é uma utopia. É certo que os gostos são pessoais e nem todos encontrarão la vie est en rose em Paris. Como em quase todo canto, existe o lado sombra: histórias de miséria, de fome e frio, a ocupação nazista, o colaboracionismo e manifestações de segregação diversas. Mas as tristezas de ontem e outras tantas de hoje não desencantam a maioria dos visitantes. E para fazer o quê? 

Não falo do óbvio: dos museus, das igrejas, dos teatros, da gastronomia, das pontes, dos jardins, das torres, das feiras, do Sena, dos cafés, da música… Vale a pena ir nem que seja para andar a pé ao longo do rio, sentar numa praça com um sanduiche, uma garrafa de vinho e olhar em volta. Chova, neve ou faça sol, não tem tempo ruim em Paris para quem a visita. Meu grilo da consciência (ou da culpa) sopra no meu ouvido e pondera: “você já se deu conta de quanta barbaridade foi cometida para erguer os monumentos e produzir a atmosfera que você aprecia?” É verdade, mas, guardadas as devidas proporções, meu prédio no Rio deve ter sido construído por operários explorados, que jamais poderiam morar em um dos apartamentos que construíram. Nem por isso deixo de gostar da minha casa e desejar que meu porteiro e seus filhos tenham uma vida tão digna e feliz como a minha.

E os grilos da consciência e das incoerências que me perdoem, mas eu realmente não conheço nada construído pelo homem como Paris, que sobreviveu e evoluiu tão bem. A penúltima vez em que lá estive foi especial. Meu pai queria voltar a Paris com minha mãe, mas já não se sentia seguro para viajarem sozinhos. Eu e minha irmã fomos com eles. De manhã, nós deixávamos as meninas livres e pegávamos o ônibus 69 em frente ao hotel, no Marais. A cada dia, descíamos num ponto diferente e passeávamos até a hora de encontrá-las para tomar o primeiro sorvete do dia, sempre, na Place des Vosges.

Esse ônibus segue reto até a lateral do Louvre, na rue de Rivoli, e, numa manobra inusitada, à esquerda, passa por uma das portas do edifício, alcançando a espetacular esplanada onde está a pirâmide de vidro do museu de um lado e, do outro, o Arco do Carrousel com os cavalos fake de San Marco (Napoleão afanou os originais, mas eles foram devolvidos). Em seguida, o 69 atravessa o Sena, passa atrás do Musée d’Orsay, em frente aos Invalides e termina no Champ de Mars, onde se avista a Torre Eiffel. O trajeto da volta é diferente e delicioso, com atrativos de sobra para qualquer pessoa sensível: porteiros, engenheiros, mecânicos, médicos, enfermeiros, feirantes, domésticas, professores ou faxineiros. Todos, com certeza, gostariam muitíssimo, menos, lógico, economistas como Paulo Guedes, que não conhecem o prazer de trabalhar ou, pelo menos, sonhar pela redução das desigualdades, por liberdade e fraternidade. Pobres deles…