
Desde que Murilo me incentivou a escrever com regularidade para pegar o jeito e Hortência sugeriu que eu publicasse minhas crônicas da quarentena, busco fôlego nos acontecimentos do dia a dia e apelo para a memória. Mas nem sempre é fácil seguir os conselhos desses dois mestres queridos, servindo-me de um humor que se pretende terapêutico. É tanta tristeza entranhada e tamanhos os motivos de revolta, que a “pena digital” nunca esteve tão pesada.
Outro dia, de Avignon, Annie escreveu “j’ai mal à mon Brésil”, que ela própria traduziu como “o Brasil está doendo em mim”. Ela disse tudo, pois, de domingo a domingo, os acontecimentos nestas terras generosas onde em se plantando tudo dá (ou dava), inspiram apenas notas de repúdio inócuas. E nem adianta recheá-las com os mais expressivos adjetivos. Pior, parecem agradar aos seus destinatários, que contam com um exército de robôs e de idiotas a dizer-lhes o contrário, a incensá-los.
A pandemia e a revolução de hábitos que veio a seguir deixaram-me sem uma boa noção do transcurso do tempo e até sinto saudade dos velhos domingos depressivos, quando ouvia a voz do Faustão ou a música de abertura do Fantástico – sinais de que a hora do recreio estava chegando ao fim e os dias seguintes seriam reservados para muitas obrigações. Era muito feliz e não sabia. Afinal, aquelas segundas, terças, quartas, quintas e sextas tinham seu charme e também nos reservavam momentos de prazer. A segunda era o dia mais distante da segunda seguinte e a sexta-feira sempre foi o prenúncio das melhores delícias.
Ultimamente, tem sido muito duro. Pessoas queridas adoecidas ou perdidas, a truculência das relações e os casos de polícia horripilantes, como o desaparecimento dos três meninos de Belford Roxo, as balas perdidas recorrentes e o assassinato do enteado de um vereador com quem eu cruzava no plenário da Câmara. Tudo isso seca as fontes de humor e é difícil separar o joio do trigo e o trágico do cômico. Escrever sobre o senador Kajuru e evocar as rimas mais óbvias para dirigi-las ao presidente não tem graça. Sublinhar a jequice e a ignorância do ex-juiz de Curitiba que tentou fazer bonito, citando um hit da Édith Piaf não basta. Apesar de que “Piá”, convenhamos, é fo…go! Enfim, quero aqueles meus domingos de volta! A depressão passava.
Querido Mauro, quem traduziu assim foi o Face. Eu teria traduzido por “O Brasil está doendo em mim”.
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Corrigido! Obrigado!!!!
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É, Mauro, quero muito acreditar que vai passar logo, mas seria menosprezar os estragos feitos até agora e em tão pouco tempo. Mesmo quando a piada está prontá, está muito difícil achar alguma graça nas notícias vindas do Brasil.
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Mauro, você é que está se tornando o nosso mestre, conseguindo “cronicar” aquilo que nem todos podem dizer, mas, de alguma forma sentem. Não desista! com humor ou sem humor, essa escrita é uma forma de Resistência. Diz o livro do I Ching que quando os porcos invadem as planícies, os sábios buscam refúgio nas montanhas. Sejamos os guardiães desse saber, porque os porcos vão morrer e aquilo que guardamos (e sussurramos) não vai.
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💛
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É duro, Mauro! Adoraria te dizer alguma coisa como “força”, “Vai passar”, “vai melhorar”… Mas não posso pq eu mesma não acredito nisso.
Em ter., 20 de abr. de 2021 às 12:23, BLOG DO BANDEIRA escreveu:
> maurobandeirademello posted: ” Desde que Murilo me incentivou a escrever > com regularidade para pegar o jeito e Hortência sugeriu que eu publicasse > minhas crônicas da quarentena, busco fôlego nos acontecimentos do dia a dia > e na memória. Mas nem sempre é fácil seguir os conselhos d” >
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