
Preso em casa, com medo de ir lá fora, observo. Estariam todos como eu? Lógico que não. Bem cedo, vejo o porteiro do dia chegar ao prédio para render o vigia, que, já sem uniforme, caminha na direção do ponto de ônibus. Na casa em frente, em construção há mais de dois anos, não vejo ninguém, mas o barulho da serra elétrica e das britadeiras começa pontualmente às 8 e só cessa às 18. O que poderá faltar para concluírem essa casa?
Não consigo ouvir o que a vizinha do outro prédio canta em pé, diante de um homem tocando o piano. A velhinha do quarto andar sai com o carrinho de feira. Pelo jeito, está pesado. Dá para ver as marcas de talco no seu pescoço, mas a negacionista está sem máscara. Na janela de outro prédio tem um senhor que, depois de tomar o café, tira o pijama, veste uma farda cheia de medalhas, coloca o quepe e senta-se em frente à televisão.
O dia promete. As notícias dos telejornais de ontem foram angustiantes. Ouço o barulho do meu jornal contra a porta. Tomara que tenha um bom artigo. Para poder ler, sou obrigado a borrifar álcool na primeira página e algumas manchetes se esvaem. Grace ainda não conseguiu me convencer a ler a edição digital. Aliás, como abrir mão das páginas de papel da editoria nacional? Onde Cuscuz faria suas necessidades, já que o pobrezinho também está preso em casa? E ele me surpreende sempre. Nunca erra o alvo quando há fotos do chanceler.
Mando o trabalho do dia para o chefe, varro a casa, tomo banho e volto à janela. Inacreditável ver aquela turma em frente ao botequim, tomando cerveja e rindo sem proteção. Sou um otário mesmo. O 539, que sobe para a Rocinha, está lotado. Dá para ver o cansaço na fisionomia dos passageiros. Uns trouxas também. Dizem que são essenciais e são obrigados a sair de casa.
O tempo voa. O coroa da farda continua na frente da televisão, com o controle na mão. Ele o aponta para todos os lados como se fosse uma pistola. O barulho do raio da obra parou. Começo a desconfiar que estejam cavando um túnel até o cofre do banco. O pianista continua tocando. A cantora saiu da sala e tem um copo de whisky em cima do piano. A velhinha do quarto andar voltou com o carrinho de feira mais leve. Será que a danada esquartejou algum comunista e está jogando partes do cadáver no canal? Acho que vou enlouquecer, mas Grace sempre salva o dia. Linda como sempre, me estica um copo e diz; “ainda temos algumas garrafas deste Chardonay delicioso.” Tin-tin!
caramba, você se supera a cada dia. Beleza, Mauro, beleza. Feliz de ler suas crõnicas, feliz de ver essa luz mesmo sem precisar ir à janela…
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