
Nos últimos tempos, não faltam razões para notas de repúdio. Ainda mais quando não há pessoas nas ruas protestando nem voto qualificado para medidas efetivas contra o que nos revolta. Sem força suficiente no Congresso e obstáculos demais nos tribunais no caminho da justiça, sobram numerosas notas de repúdio, que, pelo menos, revelam quem não está em cima do muro. No entanto, seu efeito é próximo ao dos placebos.
Redigi-las não é tarefa nada fácil. Como em todo texto coletivo, os pitacos se avolumam e os manifestos tendem a ser longos demais – o que espanta o leitor preguiçoso. Ou melhor, o leitor e a leitora (preguiçosx), pois é repudiável não explicitar os gêneros na expressão das revoltas coletivas. Mas o fato é que as laudas de repúdio não estão dando resultado, assim como nada parece estar funcionado direito nos últimos anos…
Mas é digna de nota a discussão que assisti quando três páginas de um novo repúdio, já aprovadas, estavam sendo impressas. Um dos colaboradores pediu a reabertura da assembleia. Que parassem a copiadora! Faltara uma crase na versão final do texto. Achei a sua atitude o máximo! Nosso idioma é cheio de armadilhas e, afinal, a falta de uma crase representaria um sério risco. Depois de mais duas horas de discussão, foi decidido que a matriz do texto seria redigitada e as cópias com a omissão da crase seriam retificadas à mão por uma comissão munida de caneta preta. Urra! O vernáculo foi salvo. Que venha a revolussão!
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Caneta preta para todes!!
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