
Desde que passei a digitar e abandonei a caligrafia, um traço característico meu se foi. Eu não me lembro mais da minha letra! A de fôrma e a cursiva. Até da minha assinatura, por vezes, esqueço, pois tem sido substituída por seis dígitos – fórmula que eu costumava imitar do meu pai. No caso, o segundo tricampeonato do Flamengo. No mundo das senhas, ele nunca tremeu, sempre foi 53-54-55, o ano de nascimento dos primeiros filhos. Mas minha mãe, apesar de ser muito on-line e antenada em tecnologia, mantém sua letra exatamente como era quando eu aprendi a ler, e lá se vão mais de 50 anos… Ela escreve regularmente e da forma mais regular que conheço.
Ontem, já que não podíamos nos encontrar por conta da Covid, ela fez questão de preparar umas guloseimas e despachou aqui para casa. Com sua organização impecável, mandou vasilhas perfeitamente embaladas e com um papelzinho indicando o que continham. E lá estava a letra da minha mãe: “arroz doce”, “quibe”, “torta de palmito”… Que delícia de caligrafia! Que delícias de pratos para comer antes de a Covid me privar do paladar.
E saibam que a letra desse broto de 90 anos não mudou nada! Aliás, não sei se é uma questão para Freud explicar, mas nunca consegui falsificar a assinatura da minha mãe no boletim da escola. Tentei muitas vezes, por vergonha das notas vermelhas, mas era impossível. Sua assinatura flui em ondas simétricas. Um inferno! Por que minha mãe não assina com garranchos?! Nem a rubrica dá para copiar! Hoje em dia, não tenho que esconder o boletim, mas o bloqueio do passado permanece de outra forma e volta e meia ela me pergunta; “você ainda não decorou a minha senha do banco, Maurinho? Você pode precisar.” Mas não tem jeito. Ela é esperta demais e não escolhe combinações óbvias que nós, homens, teimamos em usar.
Viva a Nininha, esse doce de pessoa!
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