
Ontem, assisti na Televisão francesa a diversas reportagens sobre a vida do ex-presidente francês Valéry Giscard D’Estaing, que faleceu recentemente. Sem dúvida, um homem respeitável, elegante, e que também teria feito enorme sucesso no cinema. Ele esquiava, pilotava aviões, fazia esporte… Uma versão francesa do 007 que, por sete anos, teve bons índices de popularidade como Président de la République (1974/81). Mas, no final, a realidade econômica, a explosão do número de desempregados e o adversário François Mitterrand o derrotaram. Mesmo uma ex e muito querida professora de francês, Mme. Herbout, apesar de socialista, admirava a elegância de M. Giscard D’Estaing, muito diferente, segundo ela, de um Jacques Chirac que se deixava fotografar com os pés em cima de uma mesa Luís XV na prefeitura de Paris. “Coisa de americano”, dizia ela.
E esse “misto de presidente, príncipe e galã” tinha na sua agenda um compromisso muito interessante e próprio da potência gastronômica que governou. Para se aproximar do povo, costumava jantar na casa de alguns compatriotas, acompanhado da não menos elegante Anne-Aymone, sua mulher. Obviamente, tudo era registrado, editado e divulgado pela imprensa. Coisa simpática… E, sobre isso, assisti ao depoimento de uma das famílias que recebeu o então presidente. Uma dona de casa que sabia da visita ilustre, preparou provavelmente uma daquelas refeições francesas deliciosas, mas não contou para o resto da família quem viria para o jantar – o que causou uma enorme sensação na hora h.
Essa história, acrescida do tempo que a quarentena me reservou para escrever, levaram-me a um filme conhecido, indicado para o Oscar, e a uma hipótese trágica. O filme é o título desta crônica. Em inglês, Guess Who’s Coming to Dinner, do diretor Stanley Krammer, de 1967, com um elenco estreladíssimo: Sidney Poitier, Katherine Hepburn e Spencer Tracy. Uma jovem americana branca se apaixona por um afro-americano e seus pais preconceituosos tentam dar fim ao romance – argumento que deve ter rendido algumas dezenas de outros filmes.
E a hipótese trágica é a de imaginar que o atual presidente da nossa República possa tentar imitar o ex-presidente francês. Uau! Imaginez! Tenho uma vizinha, que fez parte da juventude nazista, que certamente adoraria receber aquele cujo nome eu não gosto de digitar. Imagino que faria um chucrute com joelho de porco, serviria sua melhor cerveja, schnapps e um apfelstrudel de sobremesa. E caso Sua Excelência, como é próprio da sua natureza deselegante, flatulasse à mesa, ela se sentiria honrada com a espontaneidade de um homem tão honesto. Aliás, para quem sobreviveu à Covid, o olfato deixou de ser um problema.
Por outro lado, tenho um casal de amigos muito próximos que planejaria banquete bem diferente, inspirado em outro delicioso filme, A festa de Babette. Como aperitivo, um Porto de 40 anos aromatizado com gotas de arsênico. De entrada, oeuf dur à la salmonelle. Prato principal, escabeche de peixe com batatas salteadas em manteiga de sálvia e cianureto de potássio. Um Chablis harmonizaria tudo muito bem, apesar de o convidado não gostar de vinho… Sobremesa? Ah! Frappé de maracujá batido em vidro moído, além do indispensável Champagne, mas só para os anfitriões.
Releio-me e constato como a imaginação vai longe… Certamente, o desejo de que todos descansem em paz. Uns mais cedo do que outros…
Seria muita sofisticação para quem não merece. E acho também que o casal desta “chronique à clef” não teria estômago para convidar o indivíduo como comensal.
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Só por uma causa libertária, não é?
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AHAH, Mauro. Demais. Sem esquecer a versão O discreto charme da burguesia, do Buñuel, em que os assentos da mesa do jantar eram privadas. Esse talvez fosse para Sua Excelência e seus ministros que, ao final, seriam abduzidos pelas próprias.
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Boa! É por ali mesmo o futuro que desejamos para essa turma.rsrsrs
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