O Brasil definitivamente é um país atrasado. Até nas principais metrópoles não há banheiros públicos. E não adianta o Brasil profundo protestar, fazer barulho, lançar bombas de efeito moral. É um fato tão irrefutável quanto irrefreáveis são os movimentos peristálticos e a incontinência urinária – o que me transporta a uma tarde fria de outono em Estrasburgo, quando tive uma emergência e, com extrema facilidade, encontrei um banheiro público no subsolo de uma praça. E mais: era impecavelmente limpo e tive o prazer de ouvir um sonoro “bonjour Monsieur” de uma senhora sentada diante de um pratinho de moedas. Quel honneur! A presença da dame supervisionando tudo causou-me um embaraço inicial, mas o que fazer? Confiei e segui a regra. Dei-lhe as costas e aliviei-me dos efeitos de um par de copos da deliciosa cerveja sob pressão 1664.

A partir da experiência alsaciana, passei a observar melhor esse indicador de desenvolvimento. Na capital francesa e em outras cidades européias, os banheiros públicos são cabines de aço inteiramente automáticas. Minha primeira vez com essas máquinas, confesso, foi constrangedora. Eu flanava pelo Boulevard Saint-Michel na altura da livraria Gibert Jeune, quando uma súbita necessidade me fez recorrer ao engenho. Coloquei as moedas indicadas e a porta se abriu. Notei a limpeza do ambiente, entrei e a porta se fechou. Por pudor e insegurança, para me certificar de que a célula estava trancada, coloquei a mão na maçaneta. A porta se abriu! E já se tinha formado uma pequena fila na calçada… Mas como eu ainda não havia alcançado o meu objetivo, restei imóvel e poucos segundos depois a porta se fechou. Mas, outra vez, o pudor! Pus a mão no raio da maçaneta e a porta se abriu de novo. Quelle honte! A fila estava maior e as fisionomias nada amigáveis. Não toquei em mais nada, foquei no que desejava e confiei que a tecnologia garantiria a minha privacidade. Deu certo! Quando saí – divido o conhecimento adquirido com o querido leitor – aprendi que esse tipo de cabine sanitária se limpa automaticamente. Esguichos de água podiam ser ouvidos como se fosse um lava jato.

Outra viagem, outra experiência. Dessa vez, perdi uma moeda extra para as máquinas de aço. Mas o prejuízo decorreu de lamentável atitude de um compatriota que se achava muito esperto. Estávamos na estação da SNCF de Vernon, ansiosos para conhecer Giverny, e achei prudente dar uma passada numa das minhas conhecidas cabines. Ela estava ocupada e havia um rapaz à minha frente com a camisa do Flamengo. A portinhola de aço se abriu e uma pessoa saiu. Mas antes que fechasse para iniciar a limpeza e ficar pronta para o cliente seguinte, o rapaz pulou para dentro. Ora, ora, gastar euros para fazer um xixizinho rápido é só para os otários. No entanto, qual não foi a sua surpresa quando o mecanismo pôs-se a se limpar, com esguichos de água e detergente. Só ouvia os gritos de socorro e um “me tira daqui!”. Por compaixão à máquina, com um euro libertei o cretino encharcado, mas confesso que antes contei… com calma… até dix.