Como todo maricas que se preza, quando estudei na Aliança Francesa, li o clássico de Antoine de Saint-Exupéry, “Le petit prince”. E sempre que vejo na televisão os gráficos da Covid no Brasil, eu os associo a uma passagem desse livro que, de forma preconceituosa, era definido como o único lido pelas misses, menosprezando-se a capacidade intelectual de algumas mulheres bonitas e a qualidade da obra de Saint-Éxupery.

No tal trecho, o narrador da história conta ao pequeno príncipe que, quando criança, queria ser pintor. Mostrou seu primeiro desenho às pessoas grandes e perguntou se ele causava muito medo. Cegos, os adultos responderam que um chapéu não causaria medo em ninguém, pois não perceberam que se tratava de uma jibóia engolindo um elefante.

E foi preciso um segundo desenho, com o raio X da barriga da cobra, para comprovar o óbvio. De todo modo, a carreira de pintor do narrador foi interrompida. Para usar uma expressão da moda, as pessoas grandes eram negacionistas, e também não acreditariam que o planeta B-612, do pequeno príncipe, é esférico, tem três vulcões e uma rosa…

Viagens literárias à parte, o fato é que a pandemia da Covid ainda é minimizada pelo atual presidente da nossa República. Depois de viajar na cloroquina, Sua “Excelência” transferiu a responsabilidade da tragédia aos seus opositores e, como não bastasse, prossegue negando o gráfico da Covid e o que aquelas linhas tremidas representam. Ao avançarem, elas demonstram que o vírus e a omissão monstruosa continuam a devorar pessoas – não um elefante. Ontem, dentro da barriga da jibóia, havia mais de 163 mil pessoas – um resultado que certamente poderia ter sido diferente se a autoridade central do país fosse menos perversa e, quem sabe, tivesse na sua mesa de cabeceira mais e melhores livros – se é que já leu alguma coisa na vida além das manchetes dos jornais.

Mas o que esperar de alguém que, além de tudo, é capaz de festejar o suposto fracasso de pesquisas científicas que buscam uma vacina contra a doença? Realmente, nada de positivo – o que prova que essa guerra terá que ser vencida sem a participação do capitão-comandante em chefe das Forças Armadas. Caberá à Ciência e à sociedade civil evitarem, a todo custo, que o segundo desenho do gráfico que poderá surgir, numa segunda onda da pandemia, não seja semelhante ao da jibóia engolindo o primeiro elefante. Que seja de uma refeição menos copiosa… Quem sabe da figura patética que tanto nos envergonha? Ou seria muito indigesto?