
Rosa veio de Portugal para trabalhar para a família do meu amigo Zé e não demorou a conquistar o coração de todos, inclusive de agregados como eu. Porque sonhava, Rosa jogava no bicho todos os dias. E devia sonhar porque jogava. Estou certo de que havia uma conexão mágica dela e de todos os que estavam ao seu redor com os 25 animais do jogo do bicho. Se Rosa sonhava com Landi, um amigo nosso, era sinal de que tinha que jogar na borboleta, grupo 4. Com Zé era certo que dava porco, 18. E com Fernando, outro amigo, ela variava. Ora jogava no burro, 3, ora no veado, 24.
Tentei, em vão, descobrir sua estratégia para ganhar sempre. Sim, Rosa nunca voltava para casa sem algum lucro. Mas eu nunca fui bom em Matemática e jogo do bicho não é para qualquer um. Os grupos têm quatro dezenas. 01, 02, 03 e 04 são as dezenas da avestruz, do primeiro grupo. 97, 98, 99 e 00, as dezenas da vaca, do último grupo. E ainda tem a confusão dos números dos grupos com os das dezenas. Por exemplo, 17 é uma das dezenas do grupo do cachorro, mas 17 é o número do grupo do macaco. E mais complicados ainda eram os tipos de aposta: duque de dezena, terno de grupo, terno seco, milhar, milhar seco… Mas o fato é que os números se submetiam à Rosa, que dominava a ciência desse jogo de calçadas onde havia a cadeira do apontador e um botequim por perto.
No dia seguinte ao da morte da avó do Zé, estavam todos muito tristes e Rosa não era exceção. Não sei se para quebrar o silêncio ou para dar uma boa notícia à família, virou-se para a mãe do Zé e disse com aquele sotaque da Terrinha e um timbre de voz inesquecível: “Ó, Luzinha, sonhei com tua mãe! Vou jogar na vaca!”. Para ela, até diante de uma circunstância dolorosa era preciso manter a fé, ou melhor, a fezinha. Não sei se deu vaca naquele dia… A querida portuguesa Rosa não está mais entre nós. Deve estar apostando em outras galáxias, sonhando com as estrelas e correndo para jogar no bicheiro mais próximo. Etelvina! Acertei no milhar! Quem não sorri ao ouvir essa música? Ninguém. Pois sempre que me lembro da Rosa, como agora, também sorrio.
Acabei de ver a sua apresentação em que você se diz “velho demais para mudar de profissão”. Achei um absurdo, viu? Se nem eu me acho velha demais para recomeçar tudo! Mas também entendo que nem sempre temos escolha. Muito sucesso sempre, Mauro!
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