Levei bronca! Minha mulher disse que estava na hora de voltar a escrever sobre tios, família e sobre os cantos do mundo que conhecemos. “Chega de governos! Chega de ler sobre as maracutaias de Brasília! Esqueça as juras de amor trocadas entre Bolsonaro e Dias Toffoli! Dias melhores virão!”. Quase sempre ela tem razão e prometi que, esta semana, só olharia os lírios do campo.

Então, nada de prestar atenção nos motoristas do 410 (Gávea – Saens Peña), avançando sinais. Não vou ler sobre a ocupação da Vila Aliança por uma facção paulista nem da morte de um eletricista na troca de tiros entre o Estado constituído e o paralelo. Antes disso, vou me lembrar da brincadeira de polícia e ladrão no quintal da casa da minha avó e da mágica das visitas do tio Orlando, que morava na Bahia e de tempos em tempos chegava carregado de farinha fininha, cocada preta, umbu, alto astral e muito carinho.

Tio Orlando era um doce nas nossas vidas. Arquiteto, dono do CREA-BA número 1, e professor de francês em Pojuca, no início, vinha da Bahia de navio. Depois, de avião. Viajava sozinho. Tia Eldiva, sua mulher, não saía da Cidade Baixa de Salvador, em Itapagipe, onde viviam. Muitos anos mais tarde, já viúva, conheceu a casa do filho mais velho na Cidade Alta.

Tio Orlando vinha ao Rio para visitar as meninas, suas irmãs: minha avó Nanoca e minhas tias Lu, Zazá, Stela, Mariinha e Con. Era uma festa! Além disso, gostava de ir ao cinema e passear pela cidade. Muitas vezes, ia acompanhado pelos sobrinhos, sobre os quais lançava seus longos braços para, juntos, flanarem felizes pelo Rio de Janeiro.

Lembro-me do meu tio Ricardo constrangido contar que alertou tio Orlando sobre não abraçá-lo na Cinelândia. Não pegava bem naquela época. E de outra vez quando o 219 (Usina – Praça XV) em que estavam passou por onde, hoje, é a sede da Prefeitura, o Piranhão. Ele perguntou bem alto: “Ricardo, meu filho, aqui é a zona?!” Pois é… Se meu tio baiano soubesse da libertinagem que acontece dentro daquele prédio hoje em dia… Mas, cala-te! Nada de política!

Aliás, por mencionar ônibus e saliências, em uma das suas visitas, tio Orlando disse que aproveitaria para assistir ao filme daquela menina Sônia Braga, a Dama do Lotação. Imediatamente, alguém presente disse que ele não fizesse isso, que o filme era uma pouca vergonha, uma pornochanchada – ao que meu tio respondeu placidamente: “ora, agradeço o aviso, mas quero formar minha própria opinião”.

Tio Orlando renderia um livro ou mais. Como era bom passear com ele por um Rio que não existe mais, assim como foi uma delícia ter sido apresentado por ele à Sorveteria da Ribeira, quando fui a Salvador. Nos finais das suas temporadas por aqui, de visitas às suas irmãs, ele chegava ao aeroporto seis horas antes da hora do vôo, mesmo numa época em que não se sabia o que era um engarrafamento. Mas ele preferia assim. Aproveitava para, ali mesmo, no aeroporto do Galeão, escrever para as meninas e antecipar que havia chegado bem a Salvador. Com ele, o final era sempre feliz.

***No blog tem um texto (Por sorte) sobre outro tio famoso, Neca, uma figuraça.

https://blogdobandeira.com/2020/06/06/por-sorte/