
Volta e meia surge a culpa ou o oportunismo dos governantes e é lançado um plano, um pacote ou um programa de construções de casas para famílias de baixa renda. Em geral, são escolhidos locais inadequados e os projetos, a despeito do talento dos arquitetos e urbanistas brasileiros, são feitos sob medida para se morar mal e condenar as pessoas a não prosperarem.
Num país tão grande, onde não falta boa terra e não costumava faltar água, invariavelmente se constrói um amontoado de alvenaria de péssima qualidade, sem qualquer atrativo e espaço suficiente para uma família fincar raízes. É o pior estilo home bitter home. As casas nada têm de engraçadas, como cantava o poeta. Podem até ter um teto, mas não têm mais nada.
Quem viaja pelo Nordeste, passa por conjuntos habitacionais no meio do nada, na beira de estradas, sem qualquer encanto e onde deve ser muito difícil sonhar. Construir e estimular casas populares no litoral, com vista para o mar, nem pensar, idéia de jerico. Isto não é para pobre. As paisagens deslumbrantes são reservadas para as casas grandes e para as pousadas de luxo, onde quem não vive ali passa algumas noites.
Na BR-040, na altura de Juiz de Fora, MG, também há um típico conjunto patrocinado pelo Estado: dezenas de casas grudadas num morro cercado por coisa nenhuma. Na Baixada de Itaipuaçu, no Rio, prédios aparentemente decentes ficaram alagados pouco tempo depois de terem sido entregues aos novos moradores. A designação “baixada” já dava pistas sobre a qualidade do terreno. É um brejo.
Como esses, há centenas de péssimos exemplos da política de habitação no Brasil. É óbvio que soluções existem, mas o odioso pré-requisito dos pacotes executados até hoje, pela tradição, é que os locais sejam distantes dos centros e dos bairros existentes, sem transporte, longe das escolas, dos postos de saúde e da cultura, além de feios e propícios ao surgimento de estados paralelos. Aposto que este novo programa Casa Verde e Amarela será mais um engodo. No Brasil, o único programa habitacional que resiste com o tempo é o “Casa Grande e Senzala”.
Não há como não ficar revoltado!
CurtirCurtir