
Quem leu sobre a operação policial realizada nas residências e escritórios de eminentes advogados do país, deve ter notado as cifras astronômicas dos honorários pagos pela Federação do Comércio do Rio a seleto grupo de causídicos. Algo em torno de R$ 200 milhões, ajustados com seu presidente, o Sr. Orlando Diniz! Quanto talento! Ou melhor, quanta genialidade! Se eu fosse dono de uma igreja, de um banco ou de um partido político, não hesitaria em comprar algumas petições desses gênios para decorar meus imóveis de luxo.
Mas, de volta à realidade, pergunto-me por que um cidadão ou uma empresa procuram advogados, se dispondo a pagar valores tão altos? Eis a questão e, dentre inúmeras hipóteses, seleciono um par delas: 1) Prudêncio busca orientação jurídica para manter as suas muitas e importantes atividades dentro das balizas da legalidade; 2) Brutus, que se diz um homem honrado, quer garantir a proteção dos doutores para ações que, de antemão, sabe ser ilegais ou porque foi apanhado com a mão na bolsa e precisa de socorro. A lógica da decisão é quase a mesma: gastar um ou alguns Manabus para não ter que pagar um Picasso. No entanto, de acordo com os métodos de trabalho dos advogados, seus talentos se distinguem.
Antes de tudo, é preciso recorrer ao princípio da razoabilidade, tão caro ao mundo do Direito. De acordo com as reportagens, o presidente da Federação do Comércio disse que a contratação dos advogados nada tinha a ver com as atividades da Federação, mas, detalhe importante, o cheque saiu dela. Pode isso, Arnaldo? É eticamente aceitável? Outro aspecto a realçar é o da quantidade de zeros à direita da conta. O grau do “investimento” do Sr. Diniz, dublê de presidente e meliante, com um dinheiro que não lhe pertencia, denotava que ele buscava algo muito especial, uma verdadeira obra de arte, com combinações de cores e pinceladas geniais, que só os mestres da pintura e determinado tipo de advogado dominam e encantam os magistrados amantes da arte.
E, se compararmos os gênios da beca com os artistas das letras, nós aprenderemos que os primeiros dão um banho em qualquer escritor. Têm recursos inesgotáveis, e não apenas o magistral emprego da mesóclise. O uso das expressões em latim, data vênia, só eles dominam e, melhor, os finais das suas obras são sempre felizes. Que Padre Amaro qual nada! Só quem sentiu o prazer da prescrição de um crime sabe da magnificência do trabalho desses advogados geniais, que, justiça seja feita, não são necessariamente os que figuram nas reportagens. O Sr. Diniz, como delator e protagonista da trama, obteve os benefícios da lei. Ele não voltará para a cadeia, mas terá que abrir mão dos seus imóveis de luxo, do iate e das suas obras de arte. Coitado! Isso é cruel… Será que até do Picasso?!
Muito bom!
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