
Não se faz mais fofoca como antigamente e a maledicência não tem mais o charme que tinha. Tudo é realista demais, imediato, em desprestígio da dúvida e da imaginação. Vivemos a era das certezas. Sabe-se exatamente o que fulana disse de sicrano porque ela publica tudo no Facebook, no Instagram. E, pior, ela tuíta!
E o romantismo das falsificações? Não há mais espaço para os falsários do passado, ases da caligrafia. O consolo, se há, são as fake news e as edições de imagens, mas, como ninguém acredita em mais ninguém, até elas perderam o élan e ganham espaço as verdades insossas.
Pergunto-me se tudo isso é resultado da pobreza da imaginação e da expressão. As pessoas maquinam pouco e não escrevem mais uma boa farsa. Não descrevem um fato nebuloso com malícia. Fotografam e gravam tudo. A cena perdeu a atmosfera, aquilo que não se vê diretamente e que pode ser muito, muito, pior. Ela deu lugar à fotografia; e com o telefone! Não se conta mais um caso, não se desenha uma tragédia, simplesmente, registra-se. Desdêmona e Otelo seriam gravados. Capitu e Escobar, fotografados.
E esta maldita pandemia foi a pá de cal. Transportou-nos de vez para o mundo das lives, das reuniões on-line e do fastio. Apesar de que, outro dia, o inusitado voltou a dar as caras. E não foi o flagrante de um jornalista de paletó e cueca. Um casal reservou ao público momentos picantes durante uma audiência pública virtual da Câmara Municipal do Rio. No calor do momento, eles teriam se esquecido de desligar a câmera e os demais participantes da reunião os viram entregando-se um ao outro. Mas imaginem a cena contada. Vocês ficariam petrificados se eu revelasse a identidade desse casal e na casa de quem estavam.
Ainda me pergunto se a dupla se esqueceu realmente… Ou teria sido um ato político, deliberado, para sacudir os alicerces do parlamento carioca… Aí, a coisa bem que melhoraria… Digo isso porque, outro dia, numa reunião virtual de condomínio da qual participei, um condômino, que teria esquecido o microfone ligado, fez revelações sobre uma vizinha que também causaram furor. Mais tarde, descobriu-se que o microfone aberto foi proposital. O neocafajeste queria que todos soubessem daquilo “por acaso”, mas, ainda assim, a revelação saiu na lata, sem os bons ruídos da comunicação, quando uma história circula de boca em boca e só o Diabo sabe como acaba…
Os rumores, então, uma lástima, estão em avançado processo de extinção. Até a fritura de um ministro é rápida demais. Não é objeto de intrigas, daquilo que se ouve nos corredores do palácio e se repercute. Hoje em dia, um ministro é colocado logo no microondas. Tout court! Em dois minutos, está cozido, o mercado não perde tempo para reagir e o nome do substituto é conhecido em seguida. Um anticlímax!
Tudo muito apressado, como foi a suposta (!!) ameaça do presidente da República a um jornalista. Rápido demais… R$ 89 mil, Queiroz, porrada, Primeira Dama… E nem adiantaria os assessores de imprensa do Planalto conversarem com os editores dos jornais pelo que seria publicado e comentado. É tudo on-line.
Mas Sua Excelência, se fosse provido de neurônios mais sofisticados, poderia rebater a notícia, afirmando peremptoriamente que estava oferecendo torradas ao repórter, que demonstrava fome. Seu gado com certeza acreditaria, assim como eu! Lógico, é a pura verdade! Aliás, para quem ainda não sabe, as torradas oferecidas ao jornalista pelo comandante em chefe das Forças Armadas eram importadas e exalavam um elixir destilado na pitoresca região onde o colega Vladimir Putin tem sua dacha. Coisa fina, vendida em frascos pequenos. Alguém duvida?
Muito bom!!!
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