Não conheço pessoa que ame mais o Brasil do que a Annie. Tanto quanto ela, muitos podem gostar de Pindorama, da Ilha de Vera Cruz, da Terra de Santa Cruz ou do Brasil… Mais do que ela, não. Essa amiga, que nasceu na França e adotou o Brasil na década de 1970, é prova da pouca importância dos laços sanguíneos e da terra onde se nasce para a construção do mundo das relações, o mundo das pontes, não dos muros. 

A propósito, não me lembro de ter visto um muro bonito. As muralhas da China, o muro vermelho do Kremlin, que conheço de fotos, são imponentes, mas não enxergo beleza. Enquanto dezenas de pontes belíssimas mundo afora me vêm à cabeça. A Ponte Carlos, sobre o Moldávia, em Praga, a Golden Gate e as pontes cobertas nos Estados Unidos, as pontes japonesas, que outro francês ilustre, chamado Claude, tão bem pintou, o Pont des Arts e a Alexandre III, em Paris, as de Londres, a Estaiada de São Paulo… Já os muros, são mesmo para lamentar… e, de preferência, para derrubar.

Fraternidade e afinidades sem rótulos e fronteiras resumem um pouquinho do que Annie inspira, ela, que viveu parte do triste período militar no Brasil e não saiu correndo. Manteve a esperança e a solidariedade. A família da Annie residente no Brasil, na qual me incluo, é um grupo que tem em comum o gosto pelo chorinho, pelo samba, por Ravel e Villa Lobos. Por Billie Holiday, Piaf e Cartola. Por Noel Rosa, Tom e Bach. Por toda música boa das gentes boas de todo canto do mundo. Uma turma gulosa e gourmet, que adora feijoada, cassoulet, bouillabaisse, couscous, moqueca e profiterolles. Bebuns que brindam com vinho, cerveja e caipirinha com alguma moderação e muita felicidade. E que festejam a boa literatura, a pintura, a dança, a escultura, as piadas, a natureza intocada e, lógico, as centenas de tipos de queijo que impediram De Gaulle de governar a França, como se o problema fossem os queijos… 

Mas e agora? Será que o Brasil corre o risco de perder a Annie? Isso aqui está tão triste… Bons projetos e muita esperança ficaram pelo caminho. Seguimos socialmente injustos, desatentos com o meio ambiente e, de um tempo para cá, muito mais intolerantes.  Um país continental, sem filtro, que perdeu o respeito por si e por muitos, onde brotam grades, armas e cancelas. Será que a Annie está indo embora? Talvez seja o melhor a fazer… Mas que ela saiba que vai ter que botar muita água no cassoulet, pois a gente vai atrás. Quem sabe fazemos um mutirão para reconstruir a ponte de Avignon e, segundo a música, sobre ela dançar a roda? É lá que vive a outra parte da família. Viva as pontes! Vive les ponts! 

A foto é dela, postada dia desses no Facebook.