Em 5/7/2020

Esquerda ou direita? Não se trata de política. Escrevo sobre senso de direção e discussões que tive com Madame por conta da diversidade dos graus de orientação no espaço. Ou de desorientação… Nos lugares mais familiares e nos mais remotos, diante de uma bifurcação, eu lhe perguntava: esquerda ou direita? Invariavelmente, Mme. indicava a direção contrária. Tanto que depois de algum tempo, quando eu mesmo tinha dúvida, a certeza da sua resposta errada funcionava melhor do que qualquer GPS.

Nos 25 primeiros anos, ela ficava uma fera. Dizia que eu a desorientava. “Eu não quero que você me conduza!” Mas de uns tempos para cá relaxou e se deixa levar. Já tentei compartilhar minha técnica de jogar pedacinhos de pão imaginários ao longo do caminho como pistas para voltar. Mas ela diz que não é Maria, que eu não sou João e que os pombos comem tudo… Também sugeri que ela elegesse pontos de referência: uma montanha, uma torre, o litoral, mas, passado mais de um quarto de século juntos, ela percebeu que perder-se pelo caminho pode ser uma boa aventura, se dispuser de um bom cão ou de um marido-guia razoável.

Deixar-se ir, deixar-se voltar, deixar-se governar em determinados casos são opções e requerem confiança. Hoje em dia, entre nós, sair do elevador e esperar o sinal para tomar o caminho da direita ou da esquerda passou a ser motivo de riso. Da mesma forma, nenhum problema em deixar por conta do cão ou do marido o regresso, anos depois, a determinado restaurante, numa cidade labiríntica qualquer, cujo cardápio ela conhece de cor. O senso de orientação entrou na conta única das habilidades de um e de outro. Sou capaz de explorar muitos lugares sem mapa, mas não me pergunte das cores do caminho e não confie no meu olfato. E também não tenho o poderoso sexto sentido de Mme.

Mesmo nas raríssimas vezes em que me perco, para não perder a pose, copio Woody Allen. Numa cena memorável do filme Manhattan, ele diz que a beleza radiante de Mariel Hemingway o distrai até do taxímetro. Portanto, sempre existe uma saída honrosa para quase tudo, até diante de encruzilhadas mais complicadas. Em primeiro lugar, não podemos perder a esperança. De preferência, nem o mapa. Se não der certo, devemos seguir o instinto, a nossa melhor bússola. Por fim, se persistir a dúvida, faça como Madame e eu. Não hesitamos e seguimos de mãos dadas pela esquerda.