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Em 1/7/2020.

Um querido amigo reclamou que 95% do que escrevo contêm críticas rancorosas ao governo. Portanto, em sua homenagem, a crônica desta semana será 100% livre de agrotóxico, colesterol e gordura saturada. E nada de mensagens subliminares!

Vamos lá! Não devo falar de hemorroidas… mas quem nunca teve um revés intestinal? Ou uma cólica agravada pela distância que nos separa de uma retrete segura? Até a realeza pode experimentar essa sorte de infortúnio, ainda que goze de privilégios como nos contam os historiadores, por exemplo, sobre D. João VI. Diferentemente de nós, Sua Majestade, no tempo em que viveu no Brasil, não tinha a preocupação de obrar reconditamente e o fazia “en plein air”, diante de todos. Bastava gritar ao ajudante de ordens: “quero obrar!” e pronto. Mas seja qual for a liturgia, obrar é da natureza humana. Obram príncipes e plebeus, como resultado de movimentos peristálticos que se iniciam a partir do imprescindível alimento levado à boca.

Um médico de quem gosto muito me relatou aspectos interessantes de um congresso de Medicina, patrocinado desinteressadamente por um laboratório farmacêutico num resort no Nordeste. A discussão central foi sobre o papel dos diferentes órgãos do corpo humano e qual seria o mais importante. Foram cinco dias de sol, de muito trabalho, e os coracionistas defenderam que nenhum outro órgão revelado pela anatomia era mais importante do que o coração, o propulsor da circulação sanguínea: “sem o coração, não existe a menor chance de vida para o homem”.

Um segundo grupo, dos cerebristas, sustentou que sem o governo do cérebro o corpo pereceria. E havia os figadistas, defensores da prevalência do fígado: “sem o fígado, filtro da razão, o corpo estará irremediavelmente envenenado”. Por fim, os aguerridos intestinistas, que puseram fim às divergências com apenas uma indagação: “e se nós interrompermos a atividade intestinal depois do consumo das caipirinhas e das moquecas? Ninguém sairá vivo daqui!

De todo modo, ficou assentado nos anais do congresso o grau de influência dos outros órgãos. Um cérebro irrazoável, um coração melindrado ou um fígado intolerante, movidos por inveja e rancor, podem chantagear o intestino. Em conluio, os três poderes, digo, esses três órgãos podem atentar contra a devida digestão legal e isso precisa ser refutado.

Nunca me esqueci dessa lição de anatomia e ocorreu-me uma experiência pessoal interessante. Até 1982, eu não conhecia as “toilettes à la turque” ou privadas turcas de acordo com o nosso vernáculo. Eu estava em Paris, em frente ao Palácio da Justiça, e subitamente experimentei uma cólica infernal. Excesso de mexilhões? Não importava! Recorri ao cérebro para agir rapidamente. O que fazer? Voltar pela calçada em que eu estava e salvar-me no Sena, de cima do Pont au Change? E se um bateau mouche passar na hora H? Não, eu seria tachado de terrorista! Daí, olhei para o outro lado da rua e havia um café. Com o coração disparado, atravessei a rua, entrei no restaurante e o garçon percebeu no meu olhar o que se passava… e disse: “au sous-sol, Monsieur, à droite”. Voei, abri a porta do cubículo e qual surpresa! Havia um buraco no meio de uma louça com um relevo que me deu a certeza de que ali eu deveria colocar os pés. O engenho, creia-me, é auto-explicativo, genial!

Poupo o querido leitor dos pormenores que sucederam, mas saiba que depois de soerguer-me e reencontrar o bom garçom, não hesitei: “une coupe de champagne, s’il vous plaît”. Definitivamente, era preciso comemorar aquele triunfo, a perfeita harmonia da máquina humana que é o nosso corpo. O cérebro arrependeu-se da gula e soube reagir. O coração bombeou forte e o intestino suportou a pressão para preservar a minha honra. Já meu fígado, felizmente, o bom Deus o fez extremamente tolerante. Saúde!