
Em 23/6/2020.
Meus pais, Nininha e Jorge, casaram-se há 69 anos, no dia 23 de junho de 1951, na Igreja de São Paulo Apóstolo, em Copacabana, no então Distrito Federal. Brasília demoraria 10 anos para surgir no mapa e, eu, 11. Getúlio Vargas era o presidente, a TV Tupi tinha estreado um ano antes e eles moravam no Leblon.
Meus irmãos, Duda, Bob e Gico, chegaram com o segundo tricampeonato do Flamengo: 53, 54 e 55 – números que, mais adiante, comporiam todas as senhas de banco do meu pai. Minha irmã Ana nasceu um ano depois da primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil e, eu, durante a segunda, razão pela qual meus irmãos queriam que eu me chamasse Garrincha, o craque da seleção. Mas minha mãe conseguiu emplacar o nome do capitão do bicampeonato. Que alívio!
Do Leblon, onde faltava água, foram para a Tijuca e lá nos criaram. Não me lembro de nenhuma briga séria entre os dois. Certamente, discutiam, mas meu pai sempre a dobrava com seu jeito “bocomoco” de elogiá-la. Minha mãe cuidava dos cinco filhos, em geral, sem muita ajuda. Por algum motivo, nenhuma empregada doméstica parava lá em casa e desconfio que nós cinco tínhamos alguma culpa nisso. Mas meu pai a tratava como uma princesa. Fazia qualquer coisa para agradá-la. Ela, também, desde que ele não engordasse e, para isso, controlava o quanto ele comia – o que era inútil, pois ele avançava na goiabada com queijo de madrugada. Quando não havia doce, tomava um cálice de xarope para tosse.
A relação dos dois parecia ser tão perfeita, que um primo nosso, desconfiado, contratou um detetive para investigar o suposto caso entre meu pai e sua secretária Mariza. E eis o que reportou o investigador:
“Às sete horas da manhã, da última segunda-feira, Dr. Bandeira saiu de casa e visitou algumas obras. Às nove, encontrou sua secretária Mariza na secretaria de Obras, na Rua Fonseca Telles. Saiu sozinho para almoçar. Foi até sua casa no alto da Tijuca e, às 14, reencontrou a secretária no trabalho. Havia papéis de bombom de cereja na lixeira. Às 16h30min, Dr. Bandeira e Mariza saíram furtivamente do prédio da Fonseca Telles e desceram na direção do Campo de São Cristóvão. Os dois olharam para trás, certificaram-se que não estavam sendo vistos, e entraram, sim, incrível, na padaria! Vinte minutos depois saíram com a fisionomia alterada, como se tivessem comido dois sonhos de doce de leite cada um.”
De lá para cá, muita coisa aconteceu, coisas boas e ruins, como na vida das pessoas normais. As gargalhadas, as viagens e o pique diminuíram. Houve o tempo de perderem seus pais, tios, irmãos e tantos amigos queridos. Mas os dois seguem juntos, com as dificuldades que chegam e se acumulam com o tempo.
Aos 93 anos, meu pai se esqueceu de muita coisa – o que deve ser muito duro para minha mãe, que não perdeu a lucidez, que dirigiu até os 88, tem total autonomia e mima todo mundo. Mas, mesmo como ele está, não deixa de ser o que é, e vez ou outra se aproxima para dar um beijinho. Ela deve sentir muita saudade… de tudo. Há tempos que não controla mais as porções de sorvete que ele toma, ao contrário, faz de tudo para que ele se sinta o melhor possível – o que deve fazê-la feliz de uma forma diferente ao lado do companheiro da vida inteira.
Que coisa linda, Mauro! E você sabe contar como ninguém…
Em ter., 23 de jun. de 2020 às 12:00, BLOG DO BANDEIRA escreveu:
> maurobandeirademello posted: ” Em 23/6/2020. Meus pais, Nininha e Jorge, > casaram-se há 69 anos, no dia 23 de junho de 1951, na Igreja de São Paulo > Apóstolo, em Copacabana, no então Distrito Federal. Brasília demoraria 10 > anos para surgir no mapa e, eu, 11. Getúlio Vargas era o ” >
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Que você é uma pessoa de muita sensibilidade e talento literário já sabia, mas hoje você se superou. Parabéns!
É com amanhã nem vou lhe telefonar, deixo hoje um abração para você!
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