21/6/2020

Ao contrário de um monte de amigos, odeio fazer aniversário. E não é só por conta da aproximação com a terceira idade, que alguns sádicos dizem ser a “melhor idade”. Poucas coisas me causam mais constrangimento do que ouvir aquela musiquinha desagradável, “parabéns para você”, e ainda por cima ter que sorrir. É óbvio que quem canta normalmente o faz por carinho e, sem graça, sempre agradeço. Mas não dá para pular essa parte e comer logo o bolo? E quando cantam duas vezes? E quando arrematam com “é big é big”? Esta, então, é de dar calafrios.

Felizmente, em 2020, meu aniversário está coberto pela quarentena. Soprar velinha, então, por graça e por decreto está proibido. E não terei que responder à questão anual que se repete: “já pensou no que vai fazer no seu aniversário?”. E não adianta repetir o “nada” de todos os anos, pois sempre ouvimos aquele: “ah, mas vou dar uma passadinha aí…” E sou instado a “comemorar” o dia do meu natalício! Não que eu não goste de receber amigos e a família em casa. Adoro! Mas qualquer dia que não seja no dia do meu aniversário.

Comigo, minha mãe teve que suportar uma vez a dor do parto. Mas já suportei meu aniversário mais de quarenta vezes. Excluí da conta os da infância, com as boas recordações dos bolos enfeitados com jujuba, dos brigadeiros e cajuzinhos. Mas, depois, não. Fico deprimido e Freud não me explicou por quê. Presentes? Gosto. Mas toparia ficar sem eles em troca de não fazer aniversário.

Seja como for, este ano, a data passará num branco mais branco e não precisarei por em dúvida a rotação da Terra plana ao redor do Sol. Fui salvo pelo isolamento social. Sinto-me culpado de me esconder atrás de uma pandemia para fugir dessa obrigação anual. É de mau gosto, sem dúvida, e eu não deveria ter confessado nem escrito nada. Então, refaço a fala. Devemos, sim, festejar a saúde, a paz, o amor e as amizades. Enfim, festejar a vida. Mas precisa ser justamente a minha num determinado dia do ano?!