Partitura Pedro y El Lobo (PARA FLAUTA).

Em 12/6/2020

O peso das histórias infantis na nossa formação é extraordinário e diretamente associado ao que a escola e os adultos nos apresentam na infância. Meu gosto musical, por exemplo, foi muito influenciado por Pedro e o Lobo. A associação dos personagens dessa história aos instrumentos da orquestra nunca saiu da minha cabeça. Sacha, o passarinho, é a flauta. Ivan, o gato, o clarinete. Sonia, a pata, é o oboé. Pedro, os instrumentos de corda. O lobo, as trompas, e os caçadores são os tímpanos. E havia a coleção O Mundo da Criança, uns livros de capa vermelha, dura, que disputavam meu interesse com os disquinhos coloridos que colocava na vitrola.

Sei que é infantil – existem associações mais elaboradas nos livros de Psicologia e Antropologia – mas, volta e meia, remeto os acontecimentos do presente às histórias infantis que, a rigor, hoje, se encaixariam melhor em contos de terror que não explorei tanto. Há pouco, Cecília, louca para passear, disse-me que o prefeito e o governador tinham liberado os espaços públicos e que ela sairia. Eu repliquei: “lembra dos três porquinhos?”. Aliás, como usei essa história, quando cobrava prudência… E rematei, dizendo que o coronavírus é o lobo e que os dois porquinhos inconseqüentes, que acreditam no que dizem as bestas do presidente, do governador e do prefeito, se dão muito mal. Já ia citar o grilo falante do Pinóquio e apelar para sua consciência, quando Sonize concordou que ela saísse de bicicleta com o Cuscuz, bem cedo e de máscara. Do Zorro, sugeri, para ir até a casa da sua avó, mas jamais pela floresta. “Mauro, ela não é mais criança! Tem 18 anos e tem resistido muito bem ao nosso confinamento!”, e eu caí na real.

Com o coração apertado, não falei mais nada. Mas fantasiei, confesso… Se o capeta travestido de vovó boazinha oferecer uma maça envenenada com cloroquina para ela? Pessimismo demais? Bem, já roubaram o dinheiro todo da caixinha da Dona Baratinha e não é exagero afirmar que o nosso país é governado por um lobo sádico e por suas três crias, verdadeiras hienas que espalham mentiras por toda parte com um exército de robôs. Eles dizem que Pinóquio não parou de mentir e que Gepeto não conseguiu sair de dentro da baleia. Espalharam que Malévola matou o príncipe Felipe e que a princesa Aurora nunca mais acordou. Que a madrasta roubou os sapatinhos de cristal da Cinderela e que o pé de feijão foi cortado com uma motosserra. Não sei se viajei muito longe, mas o fato é que o reino do mal quer realmente mudar o final feliz das histórias para um “acabou, porra!”. Por outro lado, eles são toscos! São insensíveis, nunca leram um livro ou ouviram boa música. Não conhecem o Pedro nem o som dos violinos, das violas e dos violoncelos. Que fiquem sabendo que, no final de verdade, Pedro prende o lobo e a orquestra triunfante encerra a história.