
Em 6/6/2020
Aqui em casa somos quatro: eu, Sonize, Cecília e Cuscuz. Mas, na origem, são duas famílias grandes. Eu, caçula de cinco, ela, de sete irmãos. Era muita gente e, mais ainda, quando somados avós, tios e primos. Não faltam boas histórias para contar, mas costumava faltar pudim nos almoços de domingo, sempre dividido em frações irrisórias. Mas sobrevivemos!
Hoje, depois de ler o jornal e reclamar da sorte do país e dos fracassos da raça humana, lembrei-me das histórias do tio Neca, primo da minha avó Anna e considerado a pessoa mais azarada do mundo. Na casa dos meus pais, atribuíamos as faltas de sorte ocasionais ao parentesco com esse tio que, ainda bebê, levou com uma tampa de piano na cabeça. Mas sobreviveu!
Um dia, um amigo da família disse ter visto o homem mais feio do planeta. Meu tio Pedrinho disse que era impossível, pois o seu primo Neca era imbatível. Apostaram e foram conferir. Adivinhe quem era? Ele mesmo, tio Neca, que já tinha sido atropelado por um bonde e deformado por toda sorte de acidentes domésticos. Uma ocasião, já habituado com a sorte, estava no ponto de ônibus quando uma bicicleta de lavanderia desceu a ladeira desgovernada. Uma mulher ao seu lado se desesperou, mas tio Neca logo a tranqüilizou: “Senhora, ela virá em cima de mim, fique calma”. Não deu outra e ele se arrebentou todo. Foi hospitalizado às 10 horas e às 11 o hospital pegou fogo. Mas sobreviveu!
Minha mãe costuma dizer que a feiúra do nosso tio contrastava com a sua bondade. Era boníssimo. Certa vez, quando ela passava férias com meus avós em Niterói, apareceu o tio Neca. Faltavam biscoitos para o lanche e ele logo se prontificou a comprar. Como por perto não havia da marca pedida por minha avó, pegou uma barca e atravessou para o Rio. Uma tempestade desabou na cidade, as ruas ficaram alagadas, mas três horas depois tio Neca surgiu com os biscoitos, todo feliz, apesar de ter escapado por pouco de um naufrágio na Baía de Guanabara. Sobreviveu!
Penso que tio Neca foi uma espécie de anjo da guarda da família. Atraía toda falta de sorte e feiúra para si… Pena que todas as famílias não tenham outro igual. Às vezes, quando me olho no espelho de mau humor, acho que o puxei na extensão e ângulo do nariz. Mas, não tenho dúvida, sou um homem de sorte, que tenta, acerta, fracassa e segue tentando ser generoso como ele. Morreu comendo goiabada. Havia uma piaçava dentro do doce, que perfurou seu intestino e tio Neca não sobreviveu.
Faça desse prazer e desse talento a sua profissão. Beijos e sucesso.
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