Todo mundo sabe: sair à francesa ou sair à inglesa significa o ato de sair de fininho, sem despedidas, de uma festa ou de qualquer outro tipo de reunião. A depender do lado em que se estava durante a Guerra dos 100 anos, fala-se “take French leave” ou “filer à l’anglaise”.

São diversas as versões sobre as origens da expressão. Li que era uma forma de despistar a vigilância do monarca. O súdito que não suportava permanecer no banquete do rei saía às escondidas, receoso de uma reprimenda ou mesmo de perder a cabeça. Portanto, um ato de covardia.

Outra corrente sustenta que este tipo de saída era para não estimular debandadas, em respeito aos anfitriões – uma questão de cortesia. Eu não tenho dúvida, é realmente um movimento cortês, apesar de que alguns convidados adotam uma estratégia tosca para escapulir, a de supostamente ir ao banheiro.

Eles são informados que devem se dirigir à segunda porta à direita, mas, no meio do caminho, desviam para a porta da rua. Seja como for, é preciso cautela com a desculpa. Na corte francesa, nos tempos faustosos de Versailles, não era possível dizer que se estava indo ao banheiro, pois não havia este tipo de cômodo no Palácio.

Aliás, ouvi esta constatação, sobre a inexistência de salas de banho e retretes na residência do Rei de França, em uma excursão ao sítio arqueológico de Éfeso, lá se vão mais de 40 anos. Eu estava num grupo de franceses, que riram muito quando avistaram um banheiro público com assentos de pedra com furos. Eles só não esperavam pela reação da guia. Ela disse: “Enquanto os gregos construíam latrinas públicas no século X antes de Cristo, os franceses, no século XVII depois de Cristo, não previram sequer um banheiro em Versailles”.

Fui longe com a história dos banheiros… Mas aqui perto, em 2026 depois de Cristo, na dúvida sobre se saio ou não saio furtivamente, avalio vários fatores: a temperatura do ambiente, os decibéis da festa, as chances de cruzar com agentes da Lei Seca, se estou dirigindo, e, em qualquer circunstância, o meu grau de ansiedade para voltar em segurança para casa.

Deus sabe como me dói sair antes de os docinhos serem servidos! Mas, às vezes, mesmo quando a festa está boa, simplesmente não consigo e só me recordo do Leão da Montanha. Este personagem de um desenho animado da minha infância, diante de situações difíceis, dizia: “Pelas barbas de Netuno! Saída pela esquerda!” À francesa, à inglesa, à brasileira, pouco importa.