
A piscina na Urca era semiolímpica. Eu teria que atravessar 25 metros e nunca tinha participado de uma prova de natação. Os três primeiros colocados receberiam as tradicionais medalhas de ouro, prata e bronze, e subiriam no pódio. Honra ao mérito!
Um apito deu a partida e pulei na água. A essa altura, algo já não ia bem. Afundei muito e custei a botar a cabeça para fora d’água. Meus concorrentes já deviam estar no meio da piscina e eu avançava pouquíssimo naquela água pesada.
Lembro-me até hoje da vergonha que senti ao desistir, dirigindo-me para a borda lateral para ser içado para fora. Fazer o quê? Acreditei que seria possível competir quando me inscrevi nas Olimpíadas do Colégio de Aplicação de 1973. Os anos de terapia para superar o trauma ainda demorariam duas décadas. Eu tinha 11 anos.
Essas lembranças surgiram depois que soube que o filme Agente Secreto não tinha ganhado nenhum Oscar. E daí? O filme foi um sucesso. Atravessou o mundo! Encantou plateias pela trama ambientada em um momento da história do Brasil que deve ser conhecido e sentido. E o que é o Oscar, além de uma estatueta de gosto duvidoso que estimula a indefectível, a insuperável meritocracia?
Pergunto-me se não seria melhor transformar a premiação em um sorteio. Os nomes dos filmes, dos diretores e elencos seriam escritos em papeizinhos e colocados num saco de pano. Tudo bem, pode ser um saco Dior, Chanel ou Yves Saint-Laurent para na hora H chamarem uma bela atriz ou um belo ator para tirar a sorte. “And the winner is … Agente Secreto!” Uau! Que sorte! O Brasil é sortudo! Aquela mão elegante foi atraída para o nosso pedaço de papel. Puro magnetismo!
E a mesma lógica do meu New Oscar poderia valer para as competições esportivas e as licitações públicas. Imagine o campeonato brasileiro de futebol decidido por sorteio. Não digo a mão de Deus, mas a mão de uma personalidade do esporte entraria numa cumbuca onde estariam os nomes de todos os participantes e a voz do locutor Galvão Bueno soaria no alto-falante: “E o campeão do Brasileirão de 2026 é… Flamengo!!!”.
Quanto às licitações públicas, seriam diversos sorteios, e tenho muita fé na sorte do Brasil. A instituição financeira escolhida, por exemplo, para a gestão dos empréstimos consignados, seria a de um jovem mineiro, desconhecido há bem pouco tempo, um Daniel Ninguém. E a construtora vencedora da obra de transposição do Rio Parnaíba seria de propriedade de uma simples empregada doméstica. A senhorinha, até então, trabalhava na casa de um senador, presidente de um partido.
Creio que resgataríamos os milagres brasileiros. Oportunidades iguais para todos. Lisura nas escolhas. Competições cruéis e ortodoxas, nunca mais! Decidi até entrar na próxima prova de 200 metros nado borboleta. Cruze os dedos. Torça por mim!