
Uma amiga querida certo dia me surpreendeu ao dizer que quando está muito tensa, com algum problema pendente de solução, assiste ao programa de TV Largados e Pelados. É lógico que fui conferir. Afinal, podia ser uma boa alternativa, caso eu precisasse de um ansiolítico sem maiores contraindicações.
Mas devo dizer que achei o programa bem ruinzinho. Existe contingência mais tensa do que duas pessoas largadas nuas numa floresta? Já pensou na ação inexorável dos mosquitos? As partes mais íntimas e sensíveis do corpo são desfocadas – e isso até frustra uma parte dos espectadores, mas as muriçocas com toda certeza não respeitam a edição das imagens. Assistir aos programas de reformas de casas pode ser mais eficiente para quem deseja se desligar do mundo.
As cenas de Largados e Pelados são picantes apenas no sentido das picadas. De todo modo, estimulam sinapses e, pessoalmente, elucubrei. Imaginei uma super bomba de efeito moral (ou imoral) para dar conta de tanta dor no mundo em guerra. Seria uma variação da bomba de nêutrons, aquela que “só mata as pessoas” e preserva as coisas. A minha bomba faria o oposto: destruiria as coisas e deixaria as pessoas incólumes.
Meu artefato bélico seria uma resposta quase divina para punir os homens pelo que têm feito ao planeta. Depois de lançada pelo grupo extremista Jamais, a bomba deixaria todos os terráqueos largados e pelados. O grupo Jamais reivindicaria a autoria do ataque e declararia que a Terra e a humanidade jamais voltariam a ser tão maltratadas. Nossa espécie teria uma nova chance, recomeçando do zero.
Como ninguém faz uma omelete sem quebras os ovos, a detonação da minha bomba traria algum tipo de prejuízo. No caso, na dimensão cultural. Cidades lindas criadas pelos homens perderiam todos os seus prédios e monumentos. Só as pessoas seriam salvas.
Paris – choro só de pensar – voltaria a ser uma área florestada cortada por um rio com duas ilhas fluviais. Por outro lado, não haveria qualquer distinção social entre seus habitantes, todos nus, buscando gravetos nos bosques para cozinhar o coelho caçado com ervas finas. Com o tempo, teceriam fibras e recomeçariam a alta costura.
A Cidade do Rio de Janeiro deixaria de ser partida entre o morro e o asfalto. A natureza voltaria a reinar no seu esplendor. Por exemplo, nada de monstrengos construídos à beira mar, fazendo sombra nas praias. A Avenida Brasil deixaria de existir, como tantos outros fracassos da urbanização da cidade. Peixes saudáveis povoariam o Rio Acari e o Faria Timbó. Tirolesa no Pão de Açúcar? Qual! Sequer existiria o bondinho. Jamais!
O fato é que a grande consequência da ação do grupo Jamais seria que nós, pretensos homo sapiens, não voltaríamos ao pó. Voltaríamos saudáveis à estaca zero. Seria o ressurgimento do bom selvagem, só que atento aos descalabros do passado. Será que daria certo?
Será que resistiríamos à falta das comodidades conquistadas há milênios? Fazer o fogo sem palitos de fósforo não é para qualquer um… Quanto tempo nós levaríamos para reconstruir nossas casas, produzir um bom vinho, um bom queijo, reproduzir os instrumentos musicais, fazer pudim… E os mosquitos? Que pragas! Quando disporíamos de inseticidas?!