
A presença de ascensoristas em elevadores é cada vez mais rara. Lamento que em breve todos possam ser substituídos por “elevadores inteligentes”. Eu, com certeza, perderei fontes preciosas de informação. “E aí, Sr. Antônio, vai ter quórum para a votação de hoje?” “Não, Mauro, o presidente quer derrubar a sessão”.
Não falha! Sr. Antônio, que não se chama Antônio, porque preservo as minhas fontes, sabe tudo, além de ter um bom humor invejável para quem passa oito horas por dia dentro de uma caixa de aço inoxidável. Ele só não admite deixar de ser cumprimentado. “Veja só, Mauro, aquela Fulana entra no meu carro (o elevador) e sequer me olha”. “Comigo não é diferente, Antônio, e não é só ela.”
E não é mesmo! Por dever de ofício, dirijo-me a muitas Excelências para colher suas assinaturas em atas e em outros documentos oficiais. É curioso como reagem. Algumas não me olham, mas assinam o que lhes apresento. Outras não me olham e nem assinam – sou completamente invisível. Mas, felizmente, há quem reaja com educação: olham, fazem contato, assinam se concordam ou não assinam se discordam. São prima donnas esclarecidas.
Mas reagir ou não reagir com o olhar é próprio de todos nós, os mortais, os coadjuvantes. Dizem que o olhar é a porta da alma. E deve ser mesmo, pois é uma ação múltipla, que pode revelar insegurança, força, soberba, respeito, timidez, amor, ódio, todo tipo de sentimento… Portanto, se alguém evita o contato visual, pode ser uma defesa. Por exemplo, não olhar para quem nos pede dinheiro ou comida na rua.
O olhar compromete, provoca culpa, vergonha, medo… O olhar pode significar até mesmo a morte. Na mitologia grega, Narciso definhou até o fim. Diante do espelho d’água, não conseguiu desviar o olhar de si próprio. Já o olhar da Medusa transformava em pedra quem a encarasse. Neste caso, é bem diferente de quando cruzamos com alguém que nos desvia o olhar. Esta pessoa nos viu, mas dissimula por alguma razão. Menos, óbvio, por acreditar que possamos transformá-la num bloco de mármore.
São tantos os matizes do olhar… Quando ele tem o silêncio como cúmplice, juntos, são cortantes, implacáveis, ainda que, por outro ângulo, possam ser sedutores. “Este seu olhar quando encontra o meu, fala de umas coisas que eu não posso acreditar…” Olhar é ver com atenção, com boas e más intenções.
Na pintura, há obras universalmente conhecidas pela interpretação do artista do olhar. O quadro mais emblemático é o da Monalisa. Enigmático. Novamente, a porta da alma. Li em algum lugar que Leonardo da Vinci emoldurou o olhar da Monalisa com seu rosto, com seu corpo e com a paisagem ao redor. O essencial era transmitir aquele seu olhar.
O leque das manifestações artísticas é enorme. No filme O Segredo dos Seus Olhos (2009), do diretor Juan José Campanella, os olhares captados pela câmera dizem mais do que os diálogos dos personagens. Vale aqui também o registro de um “quase ensaio” sobre o olhar no romance O Colibri (2019), de Sandro Veronesi, que me foi indicado pelo amigo Eduardo Viana, cuja leitura também recomendo.
E o que dizer das inúmeras expressões de linguagem derivadas dos olhares? “Ele me fulminou com os olhos!” “Ela me enterneceu com seu olhar.” “Que olhares desconcertantes!” “Que olhar recriminador!” “Nenhuma palavra foi dita, bastou o olhar.”
É atribuída a Shakespeare uma expressão muito bonita: “ouvir com os olhos”. É a pura verdade; precisamos olhar mais.