Mimi e Violette com Cecília na casa da amiga/irmã Annie, em Avignon.

Há seis anos, uma vez por semana, publico uma crônica neste espaço – o que tem sido um prazer, sobretudo, pelos amigos que fiz, pelas trocas de opiniões e por visões diversas do nosso tempo. Deus Chronos, o deus grego do tempo, não falha na entrega da matéria prima para quem se aventura a publicar alguma coisa. Em outras palavras, nos dá os sinais dos tempos, do tempo senhor da razão e, nas redes sociais, frequentemente, do tempo senhor das paixões. 

Tratamos das influências do passado no presente e do presente nas expectativas para o futuro. Não falta assunto. Imagens e relatos do mundo inteiro estão nas palmas das nossas mãos, na telinha da geringonça que todo mundo tem. Mas alguns temas nos fariam melhor se não existissem. Através de muitas janelas avistamos o que baterá à nossa porta na forma de desalento; e não compartilhar o desânimo é um desafio, uma missão que todos nós deveríamos exercitar. Hoje, trago uma tragicomédia. Quem sabe no final arranco um sorriso?

A caminho do trabalho, atravessei a esplanada dos Arcos da Lapa para chegar à Cinelândia pela Rua Evaristo da Veiga (quem foi Evaristo da Veiga?). Sobre a calçada da Escola de Desenho Industrial, vive um grupo de moradores daquela rua: três homens e uma mulher. Há bastante tempo os vejo por ali, com um fogão improvisado, panelas amassadas, bastante papelão, dois cachorros lindos e, acredite, de uns tempos para cá, uma franga. Pois, hoje, ela estava com ares de galinha, a ciscar empertigada pela calçada de pedras portuguesas salpicada de farinha de fubá, curiosamente, perto da esquina com a Rua… das Marrecas.

Tive ímpetos de fotografar, mas seria desrespeitoso. Por que não respeitaria a privacidade daquelas pessoas, ainda que estivessem no espaço público? Um deles estava sendo gozado pelos outros. Riam muito, pareciam felizes. O cheiro era de jornal queimado, os cachorros dormiam como anjinhos e a galinha ciscava.

Evaristo da Veiga nasceu no Rio de Janeiro, em 1799. Foi jornalista, político, poeta e autor da letra do Hino da Independência:

“Já podeis da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

Já raiou a liberdade,
Já raiou a liberdade,
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!

Longe vá temor servil.
Ou ficar a Pátria livre

Ou morrer pelo Brasil;”

E segue a letra. Morta? Talvez.

Muitas palavras rimam com Brasil. Naquela época do hino, Evaristo da Veiga usou servil, hostil e varonil. Nos tempos de hoje, antes de qualquer outra, me ocorre Plasil, Doril e Rivotril, remédios. E também me vem à mente uma interjeição tão usual quanto vulgar, que rima com Brasil, mas não é mãe gentil. Não digo qual. A autocensura faz parte do meu perfil.