
Em 9 de janeiro de 1822, o príncipe regente, que se tornaria o Imperador Pedro I, disse ao povo que ficaria no Brasil, contrariamente às ordens de seu pai. A data é conhecida como Dia do Fico, e o ato de Sua Majestade definido oficialmente como um gesto de patriotismo. Há controvérsias.
Mas a questão que levanto é global. Trata do apego de príncipes em sentido amplo aos cargos que ocupam, às vantagens que têm, aos títulos e à bajulação reinante que lhes é dedicada. São adictos em ficar, pois o dia da saída de cena os apavora – o que leva muitos a planejar um substituto, em geral, parente.
“O cargo de desembargadora é tudo que posso deixar para minha filha”, confessou um ministro do STF, segundo matéria da Revista Piauí de 2016. Que pai zeloso! Que justa preocupação! E, como ele, nos três poderes da nossa jovem República, multiplicam-se os juniores, os filhos, os netos. Sem falar das “Isabelitas sem Patins”, que insistem em seguir na esteira de seus maridos com data de validade e poder perto de vencer.
Abdicar de posições de destaque é algo tão nobre quanto incomum. Do cargo mais modesto da planície ao topo das carreiras do planalto. E dificilmente partirá da maioria dos príncipes e princesas que conhecemos. Aliás, não me ocorre ninguém e sabemos que a sucessão hereditária e as reeleições intermináveis desgraçam qualquer reino.
Agora, “fulanizando” o raciocínio, o que dizer do “Dia do Saio” do Dias Toffoli?! Alguns amigos argumentam que é melhor não tocar no assunto, pois qualificam o que temos lido e ouvido na imprensa como um ataque insano às instituições. Será? Não tenho esta resposta, mas creio que não falar disso representaria um salvo conduto para todo tipo de desvio. Devemos nos calar sobre os tarados de toga também?
Insisto: por que Sua Excelência não saiu antes da relatoria do caso mais recente e escandaloso do país?! Pois, agora, defenestrado, deveria ir além, abdicando da sua cadeira no Supremo das Togas com pompa e circunstância, tal como exige a liturgia dos pavões. Se o fizer, servirá de exemplo a outros tantos que não largam o osso, a caneta, a teta, o carro oficial, a toga e toda sorte de penduricalhos rendosos.
Suba ao parlatório, Ministro, e diga ao povo que, para felicidade geral da Nação, sai do Olimpo. Faça como Pedro I algum tempo depois do Dia do Fico. Ele virou Pedro IV em Portugal. Tudo se ajeita… Dias I passará a Dias IV e fará sucesso na organização dos próximos ciclos de palestras jurídicas máster em Lisboa.