De tempos em tempos, Tio Orlando vinha de Salvador ao Rio para visitar as meninas, suas irmãs, dentre as quais, minha avó Anna. No início, de navio, depois, de avião, mas sempre carregado de farinha, umbu, cocada e muito carinho. 

Imagino o impacto que sentiu com a diferença do tempo de viagem. Por mar, prolongava o prazer de estar a caminho de matar a saudade da família do Rio. Não sei quanto tempo o percurso durava. Dois, três dias, talvez. 

Quando passou a usar avião, lembro-me de algo bem próprio dele: se o vôo estava marcado para sair às 16 horas do Galeão, às nove pegava o táxi no Alto da Tijuca. Atraso não era com ele e chegar seis horas antes da partida parecia-lhe razoável. Aproveitava o tempo para escrever para as meninas e, chegando a Salvador, colocava as cartas no correio do aeroporto – prova de que o voo tinha transcorrido bem.

Lembro-me deste meu tio querido porque, guardadas as devidas proporções, estou fazendo algo semelhante. Neste momento, escrevo ao aguardar o voo de uma viagem a Paris que farei com a família depois de dez anos. 

A comunicação nos dias de hoje é instantânea e a Internet reduziu muitas expectativas que envolvem as viagens. Tudo é muito mais previsível. Ainda assim, a ansiedade de viajar para longe continua grande. 

Nosso hotel está escolhido. Terá banheiro no quarto e faremos todas as refeições com folga. Óbvio? Antes não era. Mas as viagens muito restritas pertencem a um passado remoto, como os tempos em que sentíamos o cheiro dos cigarros Gauloises no ar e íamos à loja da Varig da Avenida dos Champs Elysées para ler o Jornal do Brasil. Mas em muitos aspectos a atmosfera de Paris se mantém. 

A ponta do meu nariz ficará gelada, o barulho do metrô e a música nas suas galerias serão ouvidos. Reviverei o mau humor de alguns garçons, comprarei marrons quentes assados nos parques e recordarei in loco, sur place, momentos felizes de viagens anteriores, eventos ruins da história, impensáveis, mas também memoráveis e libertários.

Aqui, no Aeroporto Maestro Antônio Carlos Jobim, só sinto a falta da voz da Íris Lettieri. Sem ela, o anúncio dos voos é muito mais pobre. “Tirú”…  “Varig voo 4 2 1 para Paris, embarque portão 4. Varig flight four two one, to Paris, now boarding gate four” A Íris já se foi, a Varig não existe mais, mas ainda estamos aqui e lá vamos nós! 

Ah! Não me interessa o Flore e o Aux des Magots. Há muito, estes cafés estão fora de moda e exageram nos preços. Não por acaso, Simone e Jean-Paul não mais o frequentam. Se você tiver alguma dica de bistrô, brasserie ou de um café gostoso “abordáveis”, diga-me aqui. 

Au revoir, mes amis. Paz, saúde e feliz Natal!