Já falei e escrevi muito sobre a praga do momento no Rio de Janeiro: as motocicletas. Mas, infelizmente, retomo o assunto. É impossível seguir indiferente a elas. São como nuvens de gafanhotos a percorrer ruas, avenidas e até calçadas, quando estas são a alternativa mais rápida para o piloto chegar ao seu destino – muitas vezes, fatal para ele mesmo ou para pedestres otários.

Mais uma vez, deixei meu carro na oficina para consertar o retrovisor. Fui tolo ao parar no sinal sem deixar um espaço folgado à direita, entre o carro e a calçada. Achei que era pela esquerda que o motociclista quisesse me ultrapassar. Mas, não! Contrariando a lógica de paspalhos como eu e o código de trânsito, era pela direita, para dobrar na rua seguinte na contramão. Resultado: o desgraçado golpeou com um dos pés o meu retrovisor – um prejuízo de R$ 250,00! E o dano colateral acabou sendo esta crônica. Perdoe!

Fazer o que, além de me acovardar e não reagir como meus instintos primitivos recomendariam? As motos dos dias de hoje são como moscas. Surgem de todos os lados. Seus condutores fazem cara feia se não conseguem se embrenhar por todos os espaços, e nem posso usar aquela raquete de matar mosquitos para varejá-los para o inferno. E o som que emitem? Experimente entrar num túnel, como o Rebouças. As malditas avançam a toda velocidade pela direita, pela esquerda, com um Fiu-furiu-fiu que nada tem a ver com Ademilde Fonseca cantando a Doce Melodia. Buzinam sem parar.

Estou convicto de que Belzebu quando sobe ao nosso mundo, em visita ao Rio de Janeiro, se desloca de motocicleta. O Inferno é aqui! Mas, aos poucos, a minha raiva foi passando. O estrago no retrovisor poderia ter sido pior. Não imprensei o infeliz do motoqueiro contra o tronco da árvore, como o capetinha que vive sobre meu ombro esquerdo recomendou. O anjinho do lado direito me acalmou, cantarolando a música de Ademilde:

Fiu-furiu-fiu / A buzina tocou / E eu corri para ver no portão / Fiu-furiu-fiu / Cadillac encostou mesmo na contramão / Eu entrei só pra ver / Porque o rapaz insistiu / Fiu-furiu-fiu / Lá na esquina da rua / O carro sumiu / Fui até ao Joá / Que é tão bom / E amei ao luar / Na areia do Leblon / Quando às quatro eu voltei / O leiteiro me olhou / E sorriu sem querer / Fiu-furiu-fiu / E daquela buzina não posso esquecer.  

Esquecer as motos? Como?! Se não é o ziguezague ou o raio da buzina a infernizar, é a descarga das condenadas a arrombar os nossos tímpanos!