Tenho dificuldade de delegar funções e sei que é um defeito a combater. Mas dei-me conta de algo mais grave. Desconfio das máquinas, muito além do razoável. A de calcular, tudo bem, apesar de repetir as operações e normalmente a primeira ser a correta.  Quanto à máquina de lavar roupa e ao robô aspirador de pó, estas, não me inspiram a menor confiança. No lugar de ligar seus botões e dar as costas, volto para checar se o nível d’água está compatível com o volume de roupas, se as operações de agitar, enxaguar e centrifugar são respeitadas e se o aspirador está fazendo seu trabalho direito.  

É sábado, a casa está vazia, sento-me com um livro na mão. Mas não consigo me concentrar na leitura com aquele robô zanzando pela sala sem prestar atenção na poeira embaixo da mesa de centro. Ele toma outra direção e some da minha vista. Aposto que está engastalhado no tapete, desperdiçando bateria. Não dá outra e sou obrigado a tirá-lo dali.

Peço para Alexa tocar Mozart e a estúpida responde “aí vai uma seleção de músicas da Amazon Music”. Confunde “Mozart” com “música”! E não é que a danada escolhe um bom repertório? Amadeus ficará para depois. Tom Jobim, Caetano Veloso, solos de violão de Raphael Rabello… Lá pelas tantas, João Gilberto. Eu gosto! Mas ele de novo. Bis. De novo! Confesso não estar muito a fim e tento me lembrar quem disse que odeia João Gilberto com “aquele fififi chato que canta”… Lógico! Joel Silveira, num depoimento dado a Geneton Moraes Neto. Uma série de entrevistas maravilhosa! Soube que rendeu um livro que preciso comprar. Joel disse que deixaria João Gilberto numa ilha deserta sem violão. Pegou pesado. Aliás, era seu estilo de víbora.    

E o raio do robô? Não é possível que ainda não tenha tirado a poeira debaixo da cadeira de balanço e me vejo na contingência ridícula de ficar na frente da maquineta conduzindo-a até onde deveria estar. A essa altura, o livro que abri, A Máquina do Tempo, de HG Wells, fica de lado. E a máquina de lavar? Será que já parou e devo estender a roupa na corda? Que inferno! Essas máquinas não me deixam relaxar. A besta do aspirador atola de novo na franja do tapete e volto a pensar nos dois jornalistas e numa frase do Joel Silveira: “Deus existe, mas não funciona.” Que dirá as máquinas criadas pelo homem, arremato eu! À nossa semelhança, sem dúvida.