
Baby Reborn
Havia uma boneca de porcelana no fundo de um armário da minha infância. Era de minha mãe, da sua época de criança, dos anos 1940. Deitada, ela mantinha os olhos fechados. Na posição vertical, os olhos se abriam. Eu a achava pavorosa e talhada para atuar em filmes de terror.
Minha mulher não teve bonecas na infância e ninava sacos de leite. No fundo, nada mais saudável, pois as crianças que não podiam ter os brinquedos dos sonhos estendiam a imaginação ao máximo.
E Sonize fez escola, contando a história desses seus brinquedos, pois o bebê preferido de uma sobrinha nossa era uma abóbora d’água. Com todo carinho, ela a cobria com uma fralda e a chamava de Jerimumzinho.
Minha filha, ao contrário da mãe, teve muitas bonecas: barbies de todos os tipos, bebês que faziam xixi, mini bonecas e bichos de pelúcia. Mas nada que não exigisse boas doses de criatividade e abstração. Os cabelos de suas filhas, por exemplo, eram cortados com muito estilo. Pena que não cresciam.
Hoje, porém, os brinquedos são tecnológicos demais e estou assombrado com a coqueluche dos “bebês reborn”. Coqueluche no sentido figurado, por enquanto! E que raios de bebê é esse? Reborn?!
Inicialmente, achei que Baby Reborn fosse um novo musical da Broadway, estrelado pela Barbra Streisand. Depois, descobri que se trata de um boneco hiper-realista, cujo propósito vai da “simples” brincadeira à substituição do filho que não nasceu. Visto de relance, parece um neném de verdade. E acredite! Cegonhas reborn também existem!
Maluquice, penso eu, mas creio que o fato relevante a refletir é que os bonecos hiper-realistas conjugados a ferramentas de inteligência artificial estão nos conduzindo ao que o escritor Ian McEwan descreveu no livro Máquinas Como Eu.
McEwan prevê o dia em que será possível comprar um humanoide na esquina, com humor, caráter e aptidões programáveis e, depois, com ele, interagir – uma espécie de Alexa ou Alex com cabeça, corpo e membros. E mais: você poderá escolher a cor da pele, os olhos, os volumes corporais e até a textura do cabelo!
Neste contexto, portanto, as bonecas de porcelana não me assustam mais. E quando surgir a ocasião de dar um presente a uma criança, já decidi. Vou caprichar na embalagem do jerimum. Mas com instruções expressas para que jamais acabe na panela, pois a cozinheira da minha sogra cozinhou o bebê da Beatriz e a pobrezinha chorou até o dia da feira seguinte, quando sua abóbora, digo, seu bebê renasceu; o “jerimum reborn”.