
O embrião da minha culpa social surgiu quando conheci as dependências de empregados da casa onde nasci. Não pareciam pertencer ao conjunto mágico que sempre descrevi. A casa dos meus avós era enorme, linda, num terreno cheio de árvores, com uma ponte de ferro, caramanchão, laguinho e até uma gruta. Por que, então, Nair, Maria Babosa e Gessy, o jardineiro, viviam em cubículos com cheiro de mofo e compartilhavam um banheiro minúsculo, escuro e sem água quente?
Os três estão sempre nos sonhos da minha infância, mas, pensando bem, a varrer, limpar, a cozinhar, a servir e catar… Às vezes, eu os via à noite, no escuro do quintal, atravessando a ponte na direção do portão da rua ou no sentido inverso, sob os pés de sapoti, rumo aos seus quartos escuros. Eu adorava meu avô. Era uma boa pessoa. Minha avó era doce, adorável. Mas os tempos eram assim, mais injustos do que hoje.
Na casa dos meus pais, ao lado, era um pouco diferente, além do que era muito difícil encontrar quem trabalhasse para um casal com cinco filhos bagunceiros. Quem mais tempo se manteve no posto foi Dona Imaculada, que cunhou a frase cujas iniciais dão o nome do grupo de mensagens da família: PAEMC (paz, amor e “menas” confiança). Se o desejo é de paz e amor, nada de intimidades; Imaculada tinha razão, essa coisa de patrão bonzinho não existe. Pouquíssimos agem com correção. Alguém abre mão de privilégios?! Creio que não.
Os casarões do passado não existem mais, mas a relação com os trabalhadores, especialmente, domésticos está longe de ser justa. Quantos dias por semana nossos porteiros e faxineiros têm de folga? E os que trabalham exclusivamente para alguns de nós? São bem remunerados? Têm boas condições de trabalho? “Sigo o mercado”, dizem alguns para atenuar o desconforto da realidade.
Meio século me separa da primeira vez em que constatei o fosso da desigualdade entre as pessoas. Nair era um anjo! Fazia ovo frito quando eu almoçava na vovó. À tarde, se eu estivesse vendo televisão por lá, me dava pão frito: rodelas de bisnaga na frigideira com manteiga. Era preta, mineira de Ubá e não tinha mais que um metro e meio de altura. Nair Celestino da Silva, seu nome completo. Eu a reverencio e lamento muito que a sua história tenha sido tão diferente da minha.