Primeiro, a pandemia nos privou do auxílio de uma diarista em casa. Depois, foi a constatação do nosso déficit de transações correntes, que me impôs a função de passador de roupas oficial da casa. É verdade. Tive que aprender essa tarefa chatíssima, que, no entanto, rende boas reflexões e até inspiração.

Hoje, por exemplo, lembrei-me do Téo, o metrossexual, um colega do trabalho. Téo está sempre impecavelmente vestido. Não sou eu, obviamente, quem passa suas roupas. Constato isso quando cruzo com ele no trem do metrô. Ele entra na estação do Largo do Machado e seguimos juntos até a Cinelândia. O fato de eu estar sentado quando ele entra, aumenta meu raio de observação.

No dia específico, que me ocorre quando passo uma camisa de mangas compridas (como são chatas as mangas compridas!), ele vestia-se de forma casual. Tênis preto, uma calça que devia ter saído da vitrine de uma butique naquele mesmo dia, cinto de couro lustrado e camisa polo de grife. A mochila também era preta, da mesma marca do tênis, óculos escuros, barba e cabelo sem nenhum fio fora do lugar e o nojento ainda por cima é magro!

Sempre que o avisto, sinto-me um lixo. “Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais amarrotado do que eu?” “Difícil dizer, Mauro, mas uma coisa é certa: elegante igual ao Téo, não há!” Mas naquele tal dia, quando subíamos as escadarias do metrô, decidi reagir. Minha camisa estava velha e certamente não combinava com a calça, pensei, e, antes de entrarmos no trabalho, disse: “Ih, Téo, tenho que ir ao banco”. “Mas você ainda vai ao banco? Resolvo tudo pela internet” “Sim, lógico, mas tenho que falar com o gerente…”

Dei meia volta e fui até uma loja de roupas na Rio Branco. Não acreditava no que estava fazendo, ainda mais imaginando os preços. Mas ouvi uma voz interior, que é um verdadeiro prenúncio de saldos negativos no banco: “Você merece!”

Vencido o umbral da porta da loja, apontei uma camisa que me parecia adequada e o vendedor perguntou se era para presente. “Não, vou vestir agora. Esta aqui está pinicando”. Percebi no seu olhar que ele sabia que eu mentia. “O senhor não quer aproveitar e comprar uma calça? Está na promoção!” Sujeito sarcástico! “Não, hoje, só a camisa”. Vesti a camisa nova e fui para o trabalho. Só não poderia encontrar o Téo! Como justificar a troca da camisa? 

Senti-me melhor. O inferno era o calor. Elegância e suor não combinam. Subi as escadarias do prédio e mal entrei no saguão, lá estava ele, Téo! O que ainda fazia ali?! Caramba! E ele não perdeu tempo: “O que houve com a sua camisa?” “Pois é, entornei café no banco e tive que comprar outra”.

Entramos no elevador e as nossas imagens refletidas no espelho não mentiam. Eu continuava um lixo ao seu lado. Felizmente, estaríamos a seis andares de distância. A porta do elevador abriu para mim, dei tchau, mas ele me reteve: “Espere! Deixe-me tirar a etiqueta da sua camisa, Mauro.” Será que ele viu o preço? Que ódio!